in Diário de Notícias
29 de junho de 2002
24 de junho de 2002
17 de junho de 2002
3 de junho de 2002
14 de maio de 2002
Férias: A Europa em Combóio
Todos os anos cerca de 2000 portugueses optam por fazer um inter-rail. Metem a mochila às costas e partem à descoberta. Espera-os um mês imprevisível em que quase tudo é possível. No final regressa-se com uma caixinha de memórias. Paulo e Inês fizeram um inter-rail em 1999, tiveram bons e maus momentos, e hoje estão desejosos de voltar a partir à aventura. Três anos depois fazem uma viagem no tempo e contam-nos a sua experiência.
O Inter-Rail nasceu em 1972 e foi criado como um bilhete de comboio que permitia aos jovens até aos 21 anos viajar livremente e a preços competitivos, em segunda classe, durante um mês, por 21 países europeus. Era uma forma inovadora, e mais barata, de conhecer a Europa.
Hoje o objectivo mantém-se mas está mais alargado. O cartão inter-rail passou a abarcar 29 países que estão agrupados em oito zonas distintas; em vez de um bilhete único existem quatro passes com diferentes destinos e durações; a idade máxima para os passes mais baratos passou a ser os 25 anos, mas quem for mais velho e quiser fazer esta viagem tem agora a oportunidade de o fazer (na modalidade Inter-Rail +26) a preços igualmente competitivos.
E são muitos aqueles que optam por comprar um bilhete e partir à aventura – 6,3 milhões de pessoas já fizeram um inter- rail e, em Portugal, cerca de 2000 jovens partem todos os anos. Mas o que é que é preciso para fazer esta viagem? Compra-se o cartão na CP ou em agências de viagem, consoante a zona que se quer visitar, prepara-se a mochila e é só apanhar o combóio. Paulo Silva, de 23 anos, e Inês Caeiros, um ano mais velha, resolveram fazer um inter-rail em Agosto de 1999. Porquê? «Queríamos viajar para mais do que um país e esta era a maneira mais barata».
Um mês à aventura na Europa
Começaram a pensar na viagem seis meses antes mas como afirmam «só um mês antes da partida é que começámos a decidir os destinos». Três anos depois, acham que o maior problema foi mesmo «organizar cá tudo». E explicam porquê: «Primeiro queríamos ir à Grécia e isso dificultou um bocado a nossa organização porque soubemos que os comboios eram muito lentos e de muito má qualidade e íamos perder muito tempo: tínhamos que ir até ao sul de Itália, depois apanhar o barco...era uma semana». Desistiram da Grécia mas não da viagem.
Antes de partir havia que preparar a mochila e não levar a casa às costas mas a Inês recorda-se que foi complicado: «Eu levei imensa roupa, eles telefonaram-me no próprio dia: “diz-me aí uma lista de coisas que aches que devemos levar: umas calças de ganga, três ou quatro t-shirs”. Eles acabaram por levar umas 10 t-shirts e eu umas 20».
Com o bilhete na mão é tempo de partir. De Lisboa foram para Marina Del Campo, Barcelona, Génova, Pizza, Nápoles, Salerno, Pompeia e Roma, depois saíram de Itália porque «já estávamos fartos», relembram. Seguiu-se Viena, Budapeste, Praga, Amsterdão, Bruxelas, Paris e novamente Amsterdão: «Já conhecíamos Paris e achámos que tínhamos de voltar a Amsterdão, então saímos de Paris num combóio às 6 da manhã e voltámos no dia seguinte à mesma hora». Praga foi o destino eleito pela Inês porque «a cidade é ultra romântica, está muito bem cuidada, jorra cultura por todos os lados, o clima é ameno e a cidade tem uma magia...»
Mas nem tudo é fácil. Quem faz um inter-rail tem de ter os olhos bem abertos e estar preparado para tudo. Em Budapeste, quando chegaram, tentaram enganá-los: «telefonámos para várias pousadas em Budapeste e numa disseram-me que nos iam lá buscar... quando chegámos estava muito mau tempo e um “gajo” queria-nos levar para um sítio qualquer e começámos a perceber que havia ali qualquer coisa que não estava bem. Dissemos que tínhamos ali o taxi e fugimos». Em Florença, apesar de já irem avisados, tentaram assaltá-los de uma forma muito particular: «os miúdos chegam com cartões a pedir, encostam esses cartões às malas, abrem-nas e tiram a carteira; enquanto tu estás a pensar se vais dar alguma coisa, ou não, já te levaram a carteira», recorda Inês.
O desejo de voltar a partir
No entanto, estes são episódios isolados que não superam os bons momentos que passaram, como por exemplo «dormir debaixo da Torre de Pizza». O alojamento é muitas vezes uma dificuldade em termos monetários para quem faz um inter-rail. Paulo e Inês superaram-no, dormindo em casas de amigos ou, excepcionalmente, na rua. A procura de sítio para dormir em Roma é hoje recordada com algum riso à mistura já que quando a Inês pediu um quarto para três pessoas a senhora perguntou-lhe, «com a maior das naturalidades», se queria «uma cama para três».
A alimentação também não foi um problema. «Comemos bem», adiantam. O melhor sítio para se comer são os países de Leste porque «come-se muito bem e é baratíssimo», e em Itália «comem-se os melhores gelados», dizem com ar deliciado.
Para quem quiser partir à aventura Inês sugere que escolham bem a companhia e que «conheçam mesmo bem as pessoas...o melhor é ir em número par, dois homens e duas mulheres é o ideal». Paulo aconselha levar um canivete suíço porque «dá imenso jeito» e o guia de pousadas da Europa.
No final, o balanço foi muito positivo e já têm vontade de voltar a fazer um inter-rail, mas nenhum deles quer «ir sozinho» até porque, como a Inês refere, em tom brincalhão: «eu força de braços tenho pouca e pôr a mochila lá em cima...». Desta vez o destino será a Europa do Norte, para conhecer novos países e culturas. Agora é só comprar o bilhete, pôr a mochila às costas e partir à aventura.
Todos os anos cerca de 2000 portugueses optam por fazer um inter-rail. Metem a mochila às costas e partem à descoberta. Espera-os um mês imprevisível em que quase tudo é possível. No final regressa-se com uma caixinha de memórias. Paulo e Inês fizeram um inter-rail em 1999, tiveram bons e maus momentos, e hoje estão desejosos de voltar a partir à aventura. Três anos depois fazem uma viagem no tempo e contam-nos a sua experiência.
O Inter-Rail nasceu em 1972 e foi criado como um bilhete de comboio que permitia aos jovens até aos 21 anos viajar livremente e a preços competitivos, em segunda classe, durante um mês, por 21 países europeus. Era uma forma inovadora, e mais barata, de conhecer a Europa.
Hoje o objectivo mantém-se mas está mais alargado. O cartão inter-rail passou a abarcar 29 países que estão agrupados em oito zonas distintas; em vez de um bilhete único existem quatro passes com diferentes destinos e durações; a idade máxima para os passes mais baratos passou a ser os 25 anos, mas quem for mais velho e quiser fazer esta viagem tem agora a oportunidade de o fazer (na modalidade Inter-Rail +26) a preços igualmente competitivos.
E são muitos aqueles que optam por comprar um bilhete e partir à aventura – 6,3 milhões de pessoas já fizeram um inter- rail e, em Portugal, cerca de 2000 jovens partem todos os anos. Mas o que é que é preciso para fazer esta viagem? Compra-se o cartão na CP ou em agências de viagem, consoante a zona que se quer visitar, prepara-se a mochila e é só apanhar o combóio. Paulo Silva, de 23 anos, e Inês Caeiros, um ano mais velha, resolveram fazer um inter-rail em Agosto de 1999. Porquê? «Queríamos viajar para mais do que um país e esta era a maneira mais barata».
Um mês à aventura na Europa
Começaram a pensar na viagem seis meses antes mas como afirmam «só um mês antes da partida é que começámos a decidir os destinos». Três anos depois, acham que o maior problema foi mesmo «organizar cá tudo». E explicam porquê: «Primeiro queríamos ir à Grécia e isso dificultou um bocado a nossa organização porque soubemos que os comboios eram muito lentos e de muito má qualidade e íamos perder muito tempo: tínhamos que ir até ao sul de Itália, depois apanhar o barco...era uma semana». Desistiram da Grécia mas não da viagem.
Antes de partir havia que preparar a mochila e não levar a casa às costas mas a Inês recorda-se que foi complicado: «Eu levei imensa roupa, eles telefonaram-me no próprio dia: “diz-me aí uma lista de coisas que aches que devemos levar: umas calças de ganga, três ou quatro t-shirs”. Eles acabaram por levar umas 10 t-shirts e eu umas 20».
Com o bilhete na mão é tempo de partir. De Lisboa foram para Marina Del Campo, Barcelona, Génova, Pizza, Nápoles, Salerno, Pompeia e Roma, depois saíram de Itália porque «já estávamos fartos», relembram. Seguiu-se Viena, Budapeste, Praga, Amsterdão, Bruxelas, Paris e novamente Amsterdão: «Já conhecíamos Paris e achámos que tínhamos de voltar a Amsterdão, então saímos de Paris num combóio às 6 da manhã e voltámos no dia seguinte à mesma hora». Praga foi o destino eleito pela Inês porque «a cidade é ultra romântica, está muito bem cuidada, jorra cultura por todos os lados, o clima é ameno e a cidade tem uma magia...»
Mas nem tudo é fácil. Quem faz um inter-rail tem de ter os olhos bem abertos e estar preparado para tudo. Em Budapeste, quando chegaram, tentaram enganá-los: «telefonámos para várias pousadas em Budapeste e numa disseram-me que nos iam lá buscar... quando chegámos estava muito mau tempo e um “gajo” queria-nos levar para um sítio qualquer e começámos a perceber que havia ali qualquer coisa que não estava bem. Dissemos que tínhamos ali o taxi e fugimos». Em Florença, apesar de já irem avisados, tentaram assaltá-los de uma forma muito particular: «os miúdos chegam com cartões a pedir, encostam esses cartões às malas, abrem-nas e tiram a carteira; enquanto tu estás a pensar se vais dar alguma coisa, ou não, já te levaram a carteira», recorda Inês.
O desejo de voltar a partir
No entanto, estes são episódios isolados que não superam os bons momentos que passaram, como por exemplo «dormir debaixo da Torre de Pizza». O alojamento é muitas vezes uma dificuldade em termos monetários para quem faz um inter-rail. Paulo e Inês superaram-no, dormindo em casas de amigos ou, excepcionalmente, na rua. A procura de sítio para dormir em Roma é hoje recordada com algum riso à mistura já que quando a Inês pediu um quarto para três pessoas a senhora perguntou-lhe, «com a maior das naturalidades», se queria «uma cama para três».
A alimentação também não foi um problema. «Comemos bem», adiantam. O melhor sítio para se comer são os países de Leste porque «come-se muito bem e é baratíssimo», e em Itália «comem-se os melhores gelados», dizem com ar deliciado.
Para quem quiser partir à aventura Inês sugere que escolham bem a companhia e que «conheçam mesmo bem as pessoas...o melhor é ir em número par, dois homens e duas mulheres é o ideal». Paulo aconselha levar um canivete suíço porque «dá imenso jeito» e o guia de pousadas da Europa.
No final, o balanço foi muito positivo e já têm vontade de voltar a fazer um inter-rail, mas nenhum deles quer «ir sozinho» até porque, como a Inês refere, em tom brincalhão: «eu força de braços tenho pouca e pôr a mochila lá em cima...». Desta vez o destino será a Europa do Norte, para conhecer novos países e culturas. Agora é só comprar o bilhete, pôr a mochila às costas e partir à aventura.
trabalho universitário
5 de maio de 2002
5 de fevereiro de 2002
RETRATOS
O Silêncio no Mundo dos Sons
Maria, Francisco e João têm vidas muito diferentes. Separa-os a diferença de idades e a distância geográfica dos locais onde vivem. Não se conhecem mas vivem no mesmo mundo sem som que partilham com cerca de 150 mil portugueses. Maria, Francisco e João são surdos e trabalham naquilo que gostam, mas até aí as histórias são diferentes...
Lisboa, 7:30 horas. Maria Vitorino acorda com as vibrações do despertador para mais um dia de trabalho. É assim todas as manhãs. Maria tem 32 anos e nasceu ouvinte tal como os pais mas como recorda, tudo mudou na sequência de uma meningite: «estive doente e fiquei surda aos dois anos».
Seguiu-se um processo de aprendizagem para enfrentar um mundo novo onde não se ouvem vozes e se comunica com as mãos. Passou pela escola da Associação de Pais para a Educação de Crianças com Deficiências Auditivas e pela Escola Quinta de Marrocos em Benfica onde concluiu o 6ºano. Depois veio «o curso de cabeleireira na Casa Pia». Hoje, é isso que faz. Às 9:00 horas lá está ela no cabeleireiro com um sorriso na cara pronta a trabalhar. Lava, penteia, corta, pinta, não tem medo de trabalhar. Até às 19 horas, como ela própria afirma: «faço tudo o que for preciso».
«Falo a língua gestual e leio os lábios» por isso não existem problemas de comunicação. Discriminação? Maria não se sente discriminada e diz que «as pessoas reagem muito bem». Apesar de esta ser uma boa experiência, Maria Vitorino reconhece que a integração dos surdos na vida profissional «é difícil devido às dificuldades de compreensão e à falta de apoios na sociedade». Talvez por isso quando lhe perguntam que conselho dá a surdos e ouvintes Maria apenas diz «compreensão» com esperança de que «todos sejam felizes».
Senhor professor
«Nasci surdo e estudei até à universidade sem problemas» quem o diz é Francisco Goulão, 50 anos, e professor há mais de 24 anos no Porto. É um dos poucos surdos, cerca de 1%, que concluiu o Ensino Universitário. Estudou no Colégio de S. Francisco de Salles que hoje lembra com saudade: «foi o melhor colégio do país enquanto escola especial para crianças surdas mas foi extinto». De Lisboa guarda as recordações do convívio com os ouvintes durante os anos de estudo.
Licenciado na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, hoje, Francisco Goulão diz-se realizado e enquanto professor de trabalhos manuais ensina os seus alunos surdos a serem homens. Quadros, postais, desenhos e peças de teatro são apenas algumas das actividades onde o professor Goulão deixa uma marca da sua arte e da criatividade dos alunos.
Sempre foi uma pessoa crítica pronta a lutar pelos direitos dos surdos. Hoje a posição crítica mantém-se, e os alvos são os sucessivos governos que na opinião do professor Goulão «nada fazem para apoiar os problemas dos surdos». Por isso tem receio que no futuro «possa haver muitos problemas para as crianças e para os adultos surdos por causa do sistema educativo e do problema laboral»
Um trabalho diferente
João tem 24 anos é magro, alto, alegre e brincalhão. Há um ano que de vez em quando despe a sua pele para passar a ser outra pessoa. Cara pintada, cabeleira posta, batatinha no nariz e aqui está um Palhasurdo!
João é surdo e trabalha como voluntário na Associação Portuguesa de Surdos em Lisboa. É um dos cinco elementos dos Palhasurdos (palhaços que são surdos), um projecto que começou há dois anos e já fez muitos sorrisos: «vamos a festas há um ano e a reacção é muito boa, as crianças riem-se muito», explica.
Este ano os Palhasurdos vão receber novos elementos pois como o João refere «há muitos pedidos e temos que melhorar porque há muitos surdos». A preocupação de João face ao número crescente de surdos é importante mas como todos referem a sociedade nem sempre pensa como ele. Cerca de 20 mil surdos estão integrados na vida profissional mas essa é apenas uma das barreiras que têm de ultrapassar para viver num mundo de sons onde por vezes apenas existe silêncio.
Cantar para quem não ouve
Falar com as mãos, é esta a profissão de Paula Teixeira. Os mais novos, conhecem-na do Batatoon. Uma vez por semana lá está ela no cantinho da televisão a traduzir o mundo da fantasia às crianças surdas ou a ensinar uma palavra em língua gestual a quem quiser aprender.
A par da sua actividade enquanto intérprete de língua gestual Paula tem outra paixão - cantar para toda a gente, incluindo a comunidade surda. Porque se é verdade que eles não conseguem ouvir, ninguém melhor do que eles para sentir a música. Como? Paula explica: «sentem o que se está a cantar, as vibrações, a alma da música».Hoje, com o seu próprio projecto Paula promete continuar a lutar e a sensibilizar as pessoas cantando com as mãos para que todos a possam “ouvir“.
O Silêncio no Mundo dos Sons
Maria, Francisco e João têm vidas muito diferentes. Separa-os a diferença de idades e a distância geográfica dos locais onde vivem. Não se conhecem mas vivem no mesmo mundo sem som que partilham com cerca de 150 mil portugueses. Maria, Francisco e João são surdos e trabalham naquilo que gostam, mas até aí as histórias são diferentes...
Lisboa, 7:30 horas. Maria Vitorino acorda com as vibrações do despertador para mais um dia de trabalho. É assim todas as manhãs. Maria tem 32 anos e nasceu ouvinte tal como os pais mas como recorda, tudo mudou na sequência de uma meningite: «estive doente e fiquei surda aos dois anos».
Seguiu-se um processo de aprendizagem para enfrentar um mundo novo onde não se ouvem vozes e se comunica com as mãos. Passou pela escola da Associação de Pais para a Educação de Crianças com Deficiências Auditivas e pela Escola Quinta de Marrocos em Benfica onde concluiu o 6ºano. Depois veio «o curso de cabeleireira na Casa Pia». Hoje, é isso que faz. Às 9:00 horas lá está ela no cabeleireiro com um sorriso na cara pronta a trabalhar. Lava, penteia, corta, pinta, não tem medo de trabalhar. Até às 19 horas, como ela própria afirma: «faço tudo o que for preciso».
«Falo a língua gestual e leio os lábios» por isso não existem problemas de comunicação. Discriminação? Maria não se sente discriminada e diz que «as pessoas reagem muito bem». Apesar de esta ser uma boa experiência, Maria Vitorino reconhece que a integração dos surdos na vida profissional «é difícil devido às dificuldades de compreensão e à falta de apoios na sociedade». Talvez por isso quando lhe perguntam que conselho dá a surdos e ouvintes Maria apenas diz «compreensão» com esperança de que «todos sejam felizes».
Senhor professor
«Nasci surdo e estudei até à universidade sem problemas» quem o diz é Francisco Goulão, 50 anos, e professor há mais de 24 anos no Porto. É um dos poucos surdos, cerca de 1%, que concluiu o Ensino Universitário. Estudou no Colégio de S. Francisco de Salles que hoje lembra com saudade: «foi o melhor colégio do país enquanto escola especial para crianças surdas mas foi extinto». De Lisboa guarda as recordações do convívio com os ouvintes durante os anos de estudo.
Licenciado na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, hoje, Francisco Goulão diz-se realizado e enquanto professor de trabalhos manuais ensina os seus alunos surdos a serem homens. Quadros, postais, desenhos e peças de teatro são apenas algumas das actividades onde o professor Goulão deixa uma marca da sua arte e da criatividade dos alunos.
Sempre foi uma pessoa crítica pronta a lutar pelos direitos dos surdos. Hoje a posição crítica mantém-se, e os alvos são os sucessivos governos que na opinião do professor Goulão «nada fazem para apoiar os problemas dos surdos». Por isso tem receio que no futuro «possa haver muitos problemas para as crianças e para os adultos surdos por causa do sistema educativo e do problema laboral»
Um trabalho diferente
João tem 24 anos é magro, alto, alegre e brincalhão. Há um ano que de vez em quando despe a sua pele para passar a ser outra pessoa. Cara pintada, cabeleira posta, batatinha no nariz e aqui está um Palhasurdo!
João é surdo e trabalha como voluntário na Associação Portuguesa de Surdos em Lisboa. É um dos cinco elementos dos Palhasurdos (palhaços que são surdos), um projecto que começou há dois anos e já fez muitos sorrisos: «vamos a festas há um ano e a reacção é muito boa, as crianças riem-se muito», explica.
Este ano os Palhasurdos vão receber novos elementos pois como o João refere «há muitos pedidos e temos que melhorar porque há muitos surdos». A preocupação de João face ao número crescente de surdos é importante mas como todos referem a sociedade nem sempre pensa como ele. Cerca de 20 mil surdos estão integrados na vida profissional mas essa é apenas uma das barreiras que têm de ultrapassar para viver num mundo de sons onde por vezes apenas existe silêncio.
Cantar para quem não ouve
Falar com as mãos, é esta a profissão de Paula Teixeira. Os mais novos, conhecem-na do Batatoon. Uma vez por semana lá está ela no cantinho da televisão a traduzir o mundo da fantasia às crianças surdas ou a ensinar uma palavra em língua gestual a quem quiser aprender.
A par da sua actividade enquanto intérprete de língua gestual Paula tem outra paixão - cantar para toda a gente, incluindo a comunidade surda. Porque se é verdade que eles não conseguem ouvir, ninguém melhor do que eles para sentir a música. Como? Paula explica: «sentem o que se está a cantar, as vibrações, a alma da música».Hoje, com o seu próprio projecto Paula promete continuar a lutar e a sensibilizar as pessoas cantando com as mãos para que todos a possam “ouvir“.
trabalho universitario publicado (http://www.pcd.pt/noticias/ver.php?id=203)
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