Aprender e partilhar
Curso de formação da Associação para o Planeamento da Família pretende capacitar professores para o desenho e dinamização de projectos na área da Educação para a Saúde.
Destinado a professores coordenadores do Programa de educação para a saúde e outros professores e profissionais envolvidos ou interessados na promoção da saúde em Meio escolar, o curso de formação Desenho de Projectos em educação para a Saúde, promovido pela Associação para o Planeamento familiar (APF) tem como objectivo “ajudar a estruturar projectos que pensem de forma global as questões da saúde e não só em aspectos específicos”, explica Sónia Duarte Lopes, coordenadora da Delegação de Lisboa da APF.
Paula Sousa professora de Português e Francês na Escola Secundária Alfredo Reis Silveira, no Seixal, está ligada desde há 5 anos ao projecto de educação sexual que existe na escola. Actual coordenadora do projecto Educação para a Saúde e uma das formandas, afirma que esta área sempre foi valorizada na sua escola e garante que a Educação para a Saúde “tem cada vez mais importância”. Por isso mesmo, sublinha, “todas as áreas de projecto trabalham obrigatoriamente temas na área de Educação para a Saúde”. São três as áreas prioritárias escolhidas: educação sexual, alimentação e prevenção de consumos. Os trabalhos são desenvolvidos com o Centro de Saúde da área e em parcerias com a Câmara Municipal do Seixal e inúmeras instituições como o Instituto Português de Cardiologia, a Abraço, a Associação de Luta Contra a Sida e a APF. A vinda para esta formação tem uma explicação: “procurar ideias para desenvolver outras actividades e partilhar experiências”.
E esta partilha é uma constante. Entre as formandas - professoras, assistentes sociais, psicólogas - contam-se histórias, partilham-se projectos e conhecimentos, esclarecem-se dúvidas. Aprende-se. Por aqui descobre-se quando se deve ou não usar o medo na educação para a saúde, que a proximidade geográfica dos problemas garante uma maior atenção, que o humor é uma ferramenta importante para tirar o “ar soturno e chato” que muitas vezes se tem quando se fala em saúde e descobrem-se ideias e ferramentas para bordar os diferentes assuntos nesta área. Um exemplo é a apresentação de um conjunto de fotografias, ou parte delas, que reflectem a degradação de um toxicodependente e, a partir daí, pedir aos alunos para contarem a história daquela pessoa ou escreverem o que poderiam fazer para evitar aquela situação. Cartões com pequenas histórias e questões que nos conduzem num jogo onde a reflexão do grupo sobre as decisões a tomar são mais importantes que o resultado final são outra hipótese que os professores podem adaptar para abordarem temas como o álcool, a alimentação, a droga ou o sexo. O importante, percebe-se na formação, é descobrir como comunicar estes assuntos de forma mais atractiva para transmitir informação e captar a atenção dos alunos sem que estes achem que “é uma seca”.
Sobre os projectos na Educação para a Saúde António Manuel Marques, especialista na área e um dos monitores nesta formação, esclarece que é importante manter a coerência e que os temas se devem interligar entre si . Apesar de existir uma pressão institucional para serem apresentadas muitos resultados o monitor garante que é preferível três ou quatro projectos bem feitos. Em relação aos resultados António Manuel Marques deixa, contudo, um alerta. “É natural não haver frutos imediatos. É difícil mudar comportamentos”.
Mas esta não é a única dificuldade. Apesar da “vontade e carolice dos professores que fazem com que as coisas vão funcionando”, Paula Sousa reconhece que é complicado trabalhar porque os cortes orçamentais se reflectem em menos recursos e menos meios. Exemplo disso é o gabinete de atendimento a adolescentes que existe na escola e que era muito procurado pelos alunos mas que neste momento “está parado porque não há recursos para pôr o gabinete a funcionar”. Para colmatar esta falha, escola e professores procuram criar algumas acções para os alunos receberem informação e esclarecerem dúvidas e, ao mesmo tempo, encaminham-nos para o Centro de Saúde onde há uma consulta semanal para adolescentes. “Mas eles não vão lá por vergonha ou porque tem medo de encontrar alguém que os conhece”, desabafa a docente.
A participação e interacção com os pais também é importante mas não é fácil. Por isso mesmo, numa tentativa de estimular o diálogo com os pais e transmitir conhecimentos na área da saúde a Escola Secundária Alfredo Reis Silveira já criou uma estratégia. Em cada tema que tratam os alunos levam agora algumas questões a que os pais têm de responder e, estimulados pelos filhos, lêem os folhetos, fazem pesquisa, procuram informação e dialogam.
Por tudo isto, Paula Sousa nem hesita em afirmar que “falta fazer muitas coisas nesta área”. São precisos mais recursos humanos e físicos. “Há escolas que lutam com falta de espaço para poderem formar um gabinete para poderem receber os alunos”, argumenta. Além disso, diz, são precisos técnicos. “O Ministério tem de perceber que é preciso que as escolas tenham recursos. A maior parte dos professores não tem formação nesta área. Não somos técnicos”, argumenta.
Entre as formandas a opinião parece ser unânime. “Um espaço de atendimento para jovens é importante para acompanhar e encaminhar os adolescentes”. Eles procuram conselhos e é necessário haver alguém disponível para os ouvir, capaz de dar informação relacionada com o problema e encaminhá-los para o Centro de Saúde, para especialistas ou associações. “O atendimento é importante e complexo. Para os professores no atendimento é importante ter alguém na retaguarda que dê apoio e com quem possam esclarecer dúvidas e encaminhar os alunos”, conclui o monitor.
Depois de passar pelas delegações do Algarve e do Alentejo esta formação está agora em Lisboa e até Dezembro passará ainda por São Mamede de Infesta e Coimbra. A APF é uma organização não governamental, com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social, criada em 1967, tem desenvolvido desde 1984 uma actividade alargada de apoio às escolas e professores proporcionando-lhes competências para que possam desenvolver junto dos alunos, um trabalho estruturado e continuo de Educação Sexual nas escolas.
Mais informações:
www.apf.pt
15 de novembro de 2007
4 de outubro de 2007
Ser professor
Na véspera do dia mundial do professor apresentamos a opinião de docentes em diferentes situações. Do estágio à reforma, passando pelo desemprego, descubra as suas histórias.
Têm diferentes idades e diferentes histórias de vida. Em comum a escolha de uma profissão. São professores. Nenhum se arrepende da escolha, mas reconhecem que há muitos problemas e dificuldades por resolver.
Os primeiros passos: “Era um sonho...”
Rita Martins, 25 anos, é professora estagiária na Escola Secundária com 3º Ciclo D. Dinis, em Coimbra. Dá aulas de Matemática B ao 11º ano. Diz que ainda é cedo para tirar conclusões sobre o estágio, mas garante que está a gostar. O facto de estar num núcleo de estágio onde lhe é permitido "viver" um pouco o papel de professor e participar activamente na vida escolar e em tudo o que lhe está inerente é sem dúvida um factor positivo. “Acho que o estágio nos moldes em que está actualmente é pobre e não nos prepara devidamente para um dia mais tarde virmos a dar aulas”, alerta. Quanto ao futuro não tem dúvidas: “Sei que dificilmente serei colocada nos próximos anos”.
Ainda a dar os primeiros passos, Rita não tem ilusões. “A carreira de professor é cada vez mais desvalorizada e os alunos, na sua maioria, estão cada vez menos interessados em aprender”. Além disso, salienta, há “uma perda de respeito dos alunos pelo professor.” Acha que o ensino é um "parente pobre" do nosso sistema político mas acredita que este cenário pode mudar. Como? “Com um maior apoio por parte do governo e com um maior empenho por parte dos professores. A par disto terá que haver uma mudança na forma como se olha para o professor e dar-lhe o devido valor enquanto profissional da educação”, conclui.
O desemprego: “Concorri de norte a sul do país”
“Estou a morar com os meus pais e são eles que continuam a suportar as minhas despesas”, desabafa Alexandra Silva, 25 anos, desempregada. Concorreu de norte a sul do país mas não conseguiu colocação. Tentou o ensino privado - entre 150 a 200 currículos enviados – mas também não teve sorte. Este é, aliás, um cenário comum a muitos dos seus colegas. “O panorama do desemprego dos recém-licenciados na área da educação é geral. Infelizmente, tenho colegas que terminaram o curso há já 2 ou 3 anos e continuam desempregados”, justifica.
Alexandra não cruzou os braços e começou a dar explicações de Matemática. “Estou um pouco a fazer aquilo que sempre quis - ensinar os que precisam - e continuo a manter-me sempre a par do que se passa”, explica. Quanto ao futuro, espera poder vir a dar aulas “quanto antes” e enfrentar aquele que para si é o maior desafio de qualquer professor: “fazer com que os seus alunos queiram estar na sala de aula, queiram aprender, fiquem motivados e ganhem ambição para o futuro”.
Dentro de 5-6 anos espera que haja uma revolução total do actual Sistema Educativo, e “que finalmente as coisas comecem a fazer sentido e se consiga fazer Educação em Portugal” porque, diz, aquilo que sente neste momento é bem diferente. “Sinto que em Portugal estamos a deseducar”, desabafa.
O inicio: “Não me vejo a fazer mais nada”
Sílvia tem 30 anos e é docente há sete. Há pouco mais de um ano criou um blog (http://aprofessorinha.blogspot.com) onde desabafa e se identifica como a professorinha. Não quer dar a cara ou identificar a escola onde lecciona. E explica porquê: “Muitas vezes o anonimato é a única coisa que me leva a desabafar metade do que desabafo no meu blog. Se se soubesse onde lecciono, de certeza não revelaria tanto”.
Já esteve desempregada várias vezes, uma das quais durante um ano lectivo inteiro, e actualmente dá aulas ao 7º e 8º ano. Saber que poderia ter alguma influência no futuro dos alunos atraiu-a e garante que dentro da sala de aula se sente “como peixe na água”. Ainda assim, face à situação dos professores hoje em dia, afirma que se está “num beco sem saída”. “A Ministra encurralou-nos de tal forma que a única coisa que podemos fazer é aceitar as medidas insultuosas que ela nos impõe sob pena de ver a opinião pública ainda mais contra nós do que já está”, explica.
O balanço que faz da educação em Portugal também não é o melhor. “Estamos a formar os analfabetos técnicos que amanhã vão formar a nossa sociedade. E todas as medidas que estão a ser implantadas só estão a contribuir para agravar a situação. Há pessoas a mexer na educação que nunca tiveram contacto com professores ou com alunos e isso é um erro colossal!”, alerta.
Com deslocações diárias de hora e meia, demasiado trabalho para fazer em casa e muitas saídas da escola às 20h00 devido a reuniões, Sílvia confessa que anda cansada. Mas segue em frente e não pára. “Inscrevi-me num mestrado em Administração Escolar. Tenho o sonho de poder pertencer ao um Conselho Executivo para tentar mudar alguma coisa...”, confessa.
30 anos depois: “É cada vez mais exigente”
Professora de matemática na Escola secundária com 3º ciclo D. Dinis, em Coimbra, e uma das docentes distinguidas com o prémio Pitágoras, Rosa Canelas, 55 anos, garante gostar do que faz e nunca se ter arrependido da sua escolha. Já lá vão 33 anos. “Não penso parar antes de a cabeça me atraiçoar. Não desisto de tentar que os meus alunos tenham um futuro melhor”, explica.
O facto de haver alunos que não querem aprender é, no seu entender, o maior problema para os professores. Mas não é o único. “A maneira como a sociedade despreza o conhecimento e o baixo nível de escolarização dos cidadãos, muitos deles pais dos nossos alunos, dificulta muito o trabalho dos professores”, afirma. A isto junta-se uma “sociedade que parece querer mostrar aos jovens que sem estudar se pode atingir quase tudo” e a “falta de interesse de muitos pais pela vida escolar dos filhos”.
Face a tudo isto reconhece que “ser professor é cada vez mais exigente”, sublinhando que neste campo não se pode falhar. “Qualquer falha pode ser o arruinar do futuro de um jovem”, justifica.
Opinião semelhante tem António Castelo Gama. “É muito difícil, sobretudo para os professores que se preocupam com as aprendizagens dos alunos e pretendem contribuir para que os seus alunos venham a ser no futuro cidadãos bem formados e responsáveis”, afirma o docente, já com 31 anos de carreira.
Lamenta que sejam poucas as famílias que cultivam nos seus jovens a ideia de que o verdadeiro sucesso se atinge com esforço e critica o discurso oficial. “Seria necessário que os responsáveis pela Educação “puxassem as orelhas” a quem não cumpre e incentivassem os alunos para o trabalho de qualidade, desenvolvendo a ideia de que só com trabalho e esforço pessoais se atingem as metas que nos fazem considerar pessoas realizadas”, conclui.
Nos últimos dois anos, nos períodos de maior cansaço, António confessa que já pensou algumas vezes na reforma mas só “na condição de poder continuar a colaborar no desenvolvimento de alguns projectos em que estou envolvido”, esclarece. Até porque, garante, “nunca me arrependi de ter iniciado este percurso”.
A reforma: “Não é uma profissão fácil”
Ana Caldeira decidiu reformar-se há dois anos por questões de saúde. A decisão não foi fácil. “Gosto muito de ensinar e tenho saudades das crianças. Para mim ensinar é brincar. Muitas vezes fui condenada por isso mas acho que tive êxito”, argumenta. Deu aulas no ensino primário, maioritariamente ao 4º ano, a turmas com bi e tri-repetições, com percursos alternativos. É notória a paixão com que fala do seu percurso e por isso mesmo confessa que está a tentar fazer algo na área do voluntariado.
Porque a actual situação dos professores não é fácil Ana, de 56 anos, recomenda aos que começam agora muita coragem, amor, calma e paciência. “É muito difícil. Tenho muita pena dos meus colegas. Há muitas exigências e regras, o número de crianças por turma é excessivo porque são mais instáveis e precisam de mais atenção, e as aulas já não lhes dizem nada”, justifica.
Para Maria do Rosário Soares, 58 anos, a decisão de passar à reforma foi fácil. Deu aulas ao 2º ciclo do Ensino Básico e ao Secundário. Geografia e Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social. Só guarda boas memórias das aulas e da escola mas, cumprido o tempo necessário, não hesitou e veio para casa. Agora tem tempo. Passeia, lê, está com a família...
Para aqueles que ingressam agora na profissão não sabe que conselhos dar. Mas lá vai dizendo que esta “não é uma profissão fácil” e que para se ser professor é preciso ter gosto. “Não podem ver esta profissão com um remédio...”, explica. E depois, estando cá, é preciso “lutar e exigir condições”.
Na véspera do dia mundial do professor apresentamos a opinião de docentes em diferentes situações. Do estágio à reforma, passando pelo desemprego, descubra as suas histórias.
Têm diferentes idades e diferentes histórias de vida. Em comum a escolha de uma profissão. São professores. Nenhum se arrepende da escolha, mas reconhecem que há muitos problemas e dificuldades por resolver.
Os primeiros passos: “Era um sonho...”
Rita Martins, 25 anos, é professora estagiária na Escola Secundária com 3º Ciclo D. Dinis, em Coimbra. Dá aulas de Matemática B ao 11º ano. Diz que ainda é cedo para tirar conclusões sobre o estágio, mas garante que está a gostar. O facto de estar num núcleo de estágio onde lhe é permitido "viver" um pouco o papel de professor e participar activamente na vida escolar e em tudo o que lhe está inerente é sem dúvida um factor positivo. “Acho que o estágio nos moldes em que está actualmente é pobre e não nos prepara devidamente para um dia mais tarde virmos a dar aulas”, alerta. Quanto ao futuro não tem dúvidas: “Sei que dificilmente serei colocada nos próximos anos”.
Ainda a dar os primeiros passos, Rita não tem ilusões. “A carreira de professor é cada vez mais desvalorizada e os alunos, na sua maioria, estão cada vez menos interessados em aprender”. Além disso, salienta, há “uma perda de respeito dos alunos pelo professor.” Acha que o ensino é um "parente pobre" do nosso sistema político mas acredita que este cenário pode mudar. Como? “Com um maior apoio por parte do governo e com um maior empenho por parte dos professores. A par disto terá que haver uma mudança na forma como se olha para o professor e dar-lhe o devido valor enquanto profissional da educação”, conclui.
O desemprego: “Concorri de norte a sul do país”
“Estou a morar com os meus pais e são eles que continuam a suportar as minhas despesas”, desabafa Alexandra Silva, 25 anos, desempregada. Concorreu de norte a sul do país mas não conseguiu colocação. Tentou o ensino privado - entre 150 a 200 currículos enviados – mas também não teve sorte. Este é, aliás, um cenário comum a muitos dos seus colegas. “O panorama do desemprego dos recém-licenciados na área da educação é geral. Infelizmente, tenho colegas que terminaram o curso há já 2 ou 3 anos e continuam desempregados”, justifica.
Alexandra não cruzou os braços e começou a dar explicações de Matemática. “Estou um pouco a fazer aquilo que sempre quis - ensinar os que precisam - e continuo a manter-me sempre a par do que se passa”, explica. Quanto ao futuro, espera poder vir a dar aulas “quanto antes” e enfrentar aquele que para si é o maior desafio de qualquer professor: “fazer com que os seus alunos queiram estar na sala de aula, queiram aprender, fiquem motivados e ganhem ambição para o futuro”.
Dentro de 5-6 anos espera que haja uma revolução total do actual Sistema Educativo, e “que finalmente as coisas comecem a fazer sentido e se consiga fazer Educação em Portugal” porque, diz, aquilo que sente neste momento é bem diferente. “Sinto que em Portugal estamos a deseducar”, desabafa.
O inicio: “Não me vejo a fazer mais nada”
Sílvia tem 30 anos e é docente há sete. Há pouco mais de um ano criou um blog (http://aprofessorinha.blogspot.com) onde desabafa e se identifica como a professorinha. Não quer dar a cara ou identificar a escola onde lecciona. E explica porquê: “Muitas vezes o anonimato é a única coisa que me leva a desabafar metade do que desabafo no meu blog. Se se soubesse onde lecciono, de certeza não revelaria tanto”.
Já esteve desempregada várias vezes, uma das quais durante um ano lectivo inteiro, e actualmente dá aulas ao 7º e 8º ano. Saber que poderia ter alguma influência no futuro dos alunos atraiu-a e garante que dentro da sala de aula se sente “como peixe na água”. Ainda assim, face à situação dos professores hoje em dia, afirma que se está “num beco sem saída”. “A Ministra encurralou-nos de tal forma que a única coisa que podemos fazer é aceitar as medidas insultuosas que ela nos impõe sob pena de ver a opinião pública ainda mais contra nós do que já está”, explica.
O balanço que faz da educação em Portugal também não é o melhor. “Estamos a formar os analfabetos técnicos que amanhã vão formar a nossa sociedade. E todas as medidas que estão a ser implantadas só estão a contribuir para agravar a situação. Há pessoas a mexer na educação que nunca tiveram contacto com professores ou com alunos e isso é um erro colossal!”, alerta.
Com deslocações diárias de hora e meia, demasiado trabalho para fazer em casa e muitas saídas da escola às 20h00 devido a reuniões, Sílvia confessa que anda cansada. Mas segue em frente e não pára. “Inscrevi-me num mestrado em Administração Escolar. Tenho o sonho de poder pertencer ao um Conselho Executivo para tentar mudar alguma coisa...”, confessa.
30 anos depois: “É cada vez mais exigente”
Professora de matemática na Escola secundária com 3º ciclo D. Dinis, em Coimbra, e uma das docentes distinguidas com o prémio Pitágoras, Rosa Canelas, 55 anos, garante gostar do que faz e nunca se ter arrependido da sua escolha. Já lá vão 33 anos. “Não penso parar antes de a cabeça me atraiçoar. Não desisto de tentar que os meus alunos tenham um futuro melhor”, explica.
O facto de haver alunos que não querem aprender é, no seu entender, o maior problema para os professores. Mas não é o único. “A maneira como a sociedade despreza o conhecimento e o baixo nível de escolarização dos cidadãos, muitos deles pais dos nossos alunos, dificulta muito o trabalho dos professores”, afirma. A isto junta-se uma “sociedade que parece querer mostrar aos jovens que sem estudar se pode atingir quase tudo” e a “falta de interesse de muitos pais pela vida escolar dos filhos”.
Face a tudo isto reconhece que “ser professor é cada vez mais exigente”, sublinhando que neste campo não se pode falhar. “Qualquer falha pode ser o arruinar do futuro de um jovem”, justifica.
Opinião semelhante tem António Castelo Gama. “É muito difícil, sobretudo para os professores que se preocupam com as aprendizagens dos alunos e pretendem contribuir para que os seus alunos venham a ser no futuro cidadãos bem formados e responsáveis”, afirma o docente, já com 31 anos de carreira.
Lamenta que sejam poucas as famílias que cultivam nos seus jovens a ideia de que o verdadeiro sucesso se atinge com esforço e critica o discurso oficial. “Seria necessário que os responsáveis pela Educação “puxassem as orelhas” a quem não cumpre e incentivassem os alunos para o trabalho de qualidade, desenvolvendo a ideia de que só com trabalho e esforço pessoais se atingem as metas que nos fazem considerar pessoas realizadas”, conclui.
Nos últimos dois anos, nos períodos de maior cansaço, António confessa que já pensou algumas vezes na reforma mas só “na condição de poder continuar a colaborar no desenvolvimento de alguns projectos em que estou envolvido”, esclarece. Até porque, garante, “nunca me arrependi de ter iniciado este percurso”.
A reforma: “Não é uma profissão fácil”
Ana Caldeira decidiu reformar-se há dois anos por questões de saúde. A decisão não foi fácil. “Gosto muito de ensinar e tenho saudades das crianças. Para mim ensinar é brincar. Muitas vezes fui condenada por isso mas acho que tive êxito”, argumenta. Deu aulas no ensino primário, maioritariamente ao 4º ano, a turmas com bi e tri-repetições, com percursos alternativos. É notória a paixão com que fala do seu percurso e por isso mesmo confessa que está a tentar fazer algo na área do voluntariado.
Porque a actual situação dos professores não é fácil Ana, de 56 anos, recomenda aos que começam agora muita coragem, amor, calma e paciência. “É muito difícil. Tenho muita pena dos meus colegas. Há muitas exigências e regras, o número de crianças por turma é excessivo porque são mais instáveis e precisam de mais atenção, e as aulas já não lhes dizem nada”, justifica.
Para Maria do Rosário Soares, 58 anos, a decisão de passar à reforma foi fácil. Deu aulas ao 2º ciclo do Ensino Básico e ao Secundário. Geografia e Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social. Só guarda boas memórias das aulas e da escola mas, cumprido o tempo necessário, não hesitou e veio para casa. Agora tem tempo. Passeia, lê, está com a família...
Para aqueles que ingressam agora na profissão não sabe que conselhos dar. Mas lá vai dizendo que esta “não é uma profissão fácil” e que para se ser professor é preciso ter gosto. “Não podem ver esta profissão com um remédio...”, explica. E depois, estando cá, é preciso “lutar e exigir condições”.
25 de setembro de 2007
Conhecer melhor o Sol
Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra lança projecto destinado ao Ensino Básico e Secundário. A ideia é contribuir para um melhor conhecimento do Astro-Rei.
Promover a ciência e a astronomia em particular junto dos alunos dos 2 e 3º ciclos do Ensino Básico e Ensino Secundário. É este o objectivo do recente projecto “Sol para Todos”, organizado pelo Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra.
O projecto desenvolve-se tendo por centro o espólio de mais de 30.000 imagens do Sol – espectroheliogramas - existentes no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, fruto de um trabalho de mais de 80 anos de observações diárias do Sol, iniciado em 1926. Actualmente, encontram-se digitalizadas e disponíveis ao público aproximadamente 15.000 imagens, fruto de um projecto igualmente financiado pelo Ciência Viva, que decorreu entre 2002 e 2004. As restantes imagens encontram-se ainda em processo de digitalização.
Esta iniciativa pretende assim disponibilizar esta colecção sob a forma digital via internet a alunos portugueses e estrangeiros, bem como um conjunto de actividades que permitam o uso dessas imagens com vista à realização de trabalhos de introdução ao método científico e à investigação, que terão como pano de fundo o Sol e a sua atmosfera.
Procurando contribuir para um melhor conhecimento do Astro-Rei, e da sua influência no ambiente do nosso planeta, João Fernandes, do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra e Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, e Coordenador do projecto, convida alunos e professores a participarem em actividades que “pretendem ser pluridisciplinares e foram pensadas para uma utilização óptima dentro do projecto área-escola, embora possam perfeitamente ser executadas, quer em sala de aula e/ou em ambiente de atelier”.
Ao todo são sete as actividades propostas e incluem áreas como a Matemática, a Geografia, as TIC e as disciplinas de Ciências. Seja em aulas, e de acordo com o programa, ou em Clubes de Astronomia, os alunos do Ensino Básico podem participar na contagem de manchas solares; no Ciclo dos 11 anos e na identificação do máximo e mínimo solar; no filme da rotação solar e na determinação das dimensões de uma protuberância.
Já para os alunos do Ensino Secundário estão preparadas projectos como o Ciclo de 11 anos de actividade em outras imagens do Sol; a comparação do número de manchas com a temperatura e pressão atmosférica em Coimbra e a determinação da velocidade e período de rotação do Sol.
Este projecto tem o apoio da Agência Ciência Viva e do Programa Operacional Ciência e Inovação 2010 e decorre ao longo de todo este ano lectivo.
Mais informações:
www.mat.uc.pt/sun4all
Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra lança projecto destinado ao Ensino Básico e Secundário. A ideia é contribuir para um melhor conhecimento do Astro-Rei.
Promover a ciência e a astronomia em particular junto dos alunos dos 2 e 3º ciclos do Ensino Básico e Ensino Secundário. É este o objectivo do recente projecto “Sol para Todos”, organizado pelo Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra.
O projecto desenvolve-se tendo por centro o espólio de mais de 30.000 imagens do Sol – espectroheliogramas - existentes no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, fruto de um trabalho de mais de 80 anos de observações diárias do Sol, iniciado em 1926. Actualmente, encontram-se digitalizadas e disponíveis ao público aproximadamente 15.000 imagens, fruto de um projecto igualmente financiado pelo Ciência Viva, que decorreu entre 2002 e 2004. As restantes imagens encontram-se ainda em processo de digitalização.
Esta iniciativa pretende assim disponibilizar esta colecção sob a forma digital via internet a alunos portugueses e estrangeiros, bem como um conjunto de actividades que permitam o uso dessas imagens com vista à realização de trabalhos de introdução ao método científico e à investigação, que terão como pano de fundo o Sol e a sua atmosfera.
Procurando contribuir para um melhor conhecimento do Astro-Rei, e da sua influência no ambiente do nosso planeta, João Fernandes, do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra e Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, e Coordenador do projecto, convida alunos e professores a participarem em actividades que “pretendem ser pluridisciplinares e foram pensadas para uma utilização óptima dentro do projecto área-escola, embora possam perfeitamente ser executadas, quer em sala de aula e/ou em ambiente de atelier”.
Ao todo são sete as actividades propostas e incluem áreas como a Matemática, a Geografia, as TIC e as disciplinas de Ciências. Seja em aulas, e de acordo com o programa, ou em Clubes de Astronomia, os alunos do Ensino Básico podem participar na contagem de manchas solares; no Ciclo dos 11 anos e na identificação do máximo e mínimo solar; no filme da rotação solar e na determinação das dimensões de uma protuberância.
Já para os alunos do Ensino Secundário estão preparadas projectos como o Ciclo de 11 anos de actividade em outras imagens do Sol; a comparação do número de manchas com a temperatura e pressão atmosférica em Coimbra e a determinação da velocidade e período de rotação do Sol.
Este projecto tem o apoio da Agência Ciência Viva e do Programa Operacional Ciência e Inovação 2010 e decorre ao longo de todo este ano lectivo.
Mais informações:
www.mat.uc.pt/sun4all
2 de agosto de 2007
Uma lufada de ar fresco
Economistas e gestores dizem que o projecto não é viável e aconselham o Ar.Co a fechar as portas já desde 73. Resistentes, nunca fecharam e prestes a fazer 35 anos receberam o prémio Gulbenkian Educação.
A ambição de criar uma alternativa para a situação do ensino artístico em Portugal numa época de estagnação política e cultural levou a que um grupo de pessoas ligadas ao ensino da arte - a maior parte saída da escola de belas artes – se juntasse para dar corpo a um projecto com um tipo de ensino alternativo, mais informal, menos burocratizado, menos oficioso... “Alguns ainda experimentaram ensinar em algumas instituições recentes da altura mas acabaram por formar o Ar.Co, na altura como uma sociedade anónima que rapidamente, 2 anos depois, veio a ser transformada numa associação por se ver que havia grandes vantagens”, recorda Manuel Castro Caldas, actual director executivo do Ar.Co.
Já lá vão quase 35 anos. À cabeça do grupo de fundadores estava Manuel Costa Cabral – que veio a ser director do Ar.Co durante 22 anos - e Graça Costa Cabral. A apoiá-los financeiramente surge Lucinda Godinho, mecenas avant la lettre, a quem hoje nos espaços do Ar.Co, entre a Rua de Santiago, em Lisboa, e a Quinta de São Miguel, em Almada, ainda chamam de “Nossa Senhora”.
O Ar.Co propunha então uma pedagogia aberta à experimentação e à interrogação constante sobre as suas próprias funções e limites. Segundo o slogan da altura o plano de estudos do Ar.Co “não era um curso mas um percurso”, permitindo grande liberdade aos estudantes na escolha de um programa pessoal e proporcionando-lhes no próprio local de formação o contacto e o confronto critico com os mais diversos acontecimentos culturais.
A primeira ideia era uma escola de arte independente. Em que é que isso resultou no inicio? “Numa espécie de centro cultural - que era mais ou menos o desenho do que era possível fazer nessa altura e sobretudo em torno dos anos da revolução - que como tinha poucos programas era muito aberto a todas as propostas que viessem de fora... E o Ar.Co fazia todo o género de actividades de formação e já num estilo que ia desde os pequenos cursos até às conferências...”, explica Manuel Castro Caldas, sublinhando que o Ar.Co “era, sobretudo um centro que acolhia”.
À medida que acolhia também se foi organizando. Antes do fim dos anos 80 o actual director executivo entende que não se pode falar de um programa competitivo ao nível profissionalizante, mas depois, “com a reformulação dos programas, desde o fim dos anos 80 até aos anos 90, o Ar.Co passou a ter uma predominância quase hegemónica na produção de autores/artistas.”, esclarece. Hoje em dia, reconhecem que já não têm o monopólio mas, sublinha Manuel Castro Caldas, “nunca mais perdemos essa posição de destaque na formação de artistas para o mercado de primeira linha”.
A escola, que começou com um grupo de cerca de 60 alunos e aqui há uns anos atrás tinha 850, tem vindo a crescer. “Isto cresceu muito em quase 35 anos” afirma Manuel Castro Caldas. Ainda assim, o director executivo não tem dúvidas em afirmar que este era, e é ainda visto como um projecto improvável. “É improvável financeiramente e desde 1973 que os economistas e gestores não param de nos dizer isto, que isto “não é viável”, “fechem a porta”... E nós não fechamos”.
Prestes a fazer 35 anos nunca fecharam as portas. Fazem um balanço “muito positivo” destes anos de trabalho, mas as contrariedades são muitas. “Isto nasceu a lutar contra a corrente em muitos aspectos para conseguir sobreviver e, além de sobreviver, ainda estar a pôr aqui qualquer coisa que faz falta na sociedade portuguesa e seria pena não haver...”, afirma Manuel Castro Caldas.
Desde há anos que estão a sofrer gravíssimos problemas logísticos e financeiros porque decresceu o número de alunos - situação que se repete um pouco por todas as instituições. O director executivo reconhece que o Ar.Co passou por muitas crises mas, afirma, “nos últimos cinco anos isto tem sido mesmo difícil”. É uma espécie de jogo de equilíbrios e balanços constantes onde todos os anos “este balanço tem que se fazer de maneira diferente: conforme as coisas se passam, conforme há mais dinheiro, conforme há menos dinheiro, conforme há mais alunos, conforme há menos alunos... mas temo-lo feito!”, explica.
Por tudo isto, neste momento, ter o reconhecimento de uma instituição como é a Fundação Gulbenkian, “é da maior importância”, afirma. Para o Ar.Co receber o Prémio Gulbenkian Educação “é uma grande honra e uma enorme lufada de ar fresco”, mas para Manuel Castro Caldas o mais importante é mesmo que o reconhecimento venha do lado da educação. “Isso para mim é muito importante porque o Ar.Co sempre foi visto na sociedade portuguesa – penso eu - como uma coisa meia do meio artístico. o Ar.Co o que faz é formação. Na verdade é formação artística, mas é formação”, justifica.
Com um público muito variado, nas instalações do Ar.Co é possível encontrar pessoas de todas as idades e com os mais diversos objectivos. “É no tipo de formação e no modo como dá a formação que [o Ar.Co] difere substancialmente das outras escolas”, salienta Manuel Castro Caldas. Há quem procure uma formação pontual, quase do tipo de sensibilização ou, às vezes, quase com efeitos terapêuticos - coisa de que Manuel Castro Caldas se orgulha muito porque, defende, “a formação artística é muito forte para efeitos terapêuticos”. E por outro lado, não falta uma “formação absolutamente completa, exigente, sistemática”, “de autor”, “competitiva com as outras formações existentes no mercado e sempre a automonitorizar a sua qualidade e os seus resultados” – os cursos multianuais profissionalizantes na área da cerâmica, escultura, joalharia, pintura, desenho, ilustração e banda desenhada, design gráfico, história e teoria da arte, cinema. Não foram também esquecidos os tradicionais cursos de Verão, os cursos para miúdos, e os cursos feitos noutras escolas como aconteceu este ano na St Julian’s School.
O valor do prémio Gulbenkian educação – 50 mil euros - ainda não tem nenhum destino específico mas, segundo o director executivo, vai permitir “continuar a andar para a frente e a ter planos de desenvolvimento” ao mesmo tempo que lhes dá alguma segurança de que não vão fechar a porta amanhã.
Para o futuro os planos são não estagnar, não deixar que a mediocridade; o hábito; a monotonia e a falta de interesse se instale e manter o nível de exigência alto. O objectivo “é sempre melhorar”, salienta.
Economistas e gestores dizem que o projecto não é viável e aconselham o Ar.Co a fechar as portas já desde 73. Resistentes, nunca fecharam e prestes a fazer 35 anos receberam o prémio Gulbenkian Educação.
A ambição de criar uma alternativa para a situação do ensino artístico em Portugal numa época de estagnação política e cultural levou a que um grupo de pessoas ligadas ao ensino da arte - a maior parte saída da escola de belas artes – se juntasse para dar corpo a um projecto com um tipo de ensino alternativo, mais informal, menos burocratizado, menos oficioso... “Alguns ainda experimentaram ensinar em algumas instituições recentes da altura mas acabaram por formar o Ar.Co, na altura como uma sociedade anónima que rapidamente, 2 anos depois, veio a ser transformada numa associação por se ver que havia grandes vantagens”, recorda Manuel Castro Caldas, actual director executivo do Ar.Co.
Já lá vão quase 35 anos. À cabeça do grupo de fundadores estava Manuel Costa Cabral – que veio a ser director do Ar.Co durante 22 anos - e Graça Costa Cabral. A apoiá-los financeiramente surge Lucinda Godinho, mecenas avant la lettre, a quem hoje nos espaços do Ar.Co, entre a Rua de Santiago, em Lisboa, e a Quinta de São Miguel, em Almada, ainda chamam de “Nossa Senhora”.
O Ar.Co propunha então uma pedagogia aberta à experimentação e à interrogação constante sobre as suas próprias funções e limites. Segundo o slogan da altura o plano de estudos do Ar.Co “não era um curso mas um percurso”, permitindo grande liberdade aos estudantes na escolha de um programa pessoal e proporcionando-lhes no próprio local de formação o contacto e o confronto critico com os mais diversos acontecimentos culturais.
A primeira ideia era uma escola de arte independente. Em que é que isso resultou no inicio? “Numa espécie de centro cultural - que era mais ou menos o desenho do que era possível fazer nessa altura e sobretudo em torno dos anos da revolução - que como tinha poucos programas era muito aberto a todas as propostas que viessem de fora... E o Ar.Co fazia todo o género de actividades de formação e já num estilo que ia desde os pequenos cursos até às conferências...”, explica Manuel Castro Caldas, sublinhando que o Ar.Co “era, sobretudo um centro que acolhia”.
À medida que acolhia também se foi organizando. Antes do fim dos anos 80 o actual director executivo entende que não se pode falar de um programa competitivo ao nível profissionalizante, mas depois, “com a reformulação dos programas, desde o fim dos anos 80 até aos anos 90, o Ar.Co passou a ter uma predominância quase hegemónica na produção de autores/artistas.”, esclarece. Hoje em dia, reconhecem que já não têm o monopólio mas, sublinha Manuel Castro Caldas, “nunca mais perdemos essa posição de destaque na formação de artistas para o mercado de primeira linha”.
A escola, que começou com um grupo de cerca de 60 alunos e aqui há uns anos atrás tinha 850, tem vindo a crescer. “Isto cresceu muito em quase 35 anos” afirma Manuel Castro Caldas. Ainda assim, o director executivo não tem dúvidas em afirmar que este era, e é ainda visto como um projecto improvável. “É improvável financeiramente e desde 1973 que os economistas e gestores não param de nos dizer isto, que isto “não é viável”, “fechem a porta”... E nós não fechamos”.
Prestes a fazer 35 anos nunca fecharam as portas. Fazem um balanço “muito positivo” destes anos de trabalho, mas as contrariedades são muitas. “Isto nasceu a lutar contra a corrente em muitos aspectos para conseguir sobreviver e, além de sobreviver, ainda estar a pôr aqui qualquer coisa que faz falta na sociedade portuguesa e seria pena não haver...”, afirma Manuel Castro Caldas.
Desde há anos que estão a sofrer gravíssimos problemas logísticos e financeiros porque decresceu o número de alunos - situação que se repete um pouco por todas as instituições. O director executivo reconhece que o Ar.Co passou por muitas crises mas, afirma, “nos últimos cinco anos isto tem sido mesmo difícil”. É uma espécie de jogo de equilíbrios e balanços constantes onde todos os anos “este balanço tem que se fazer de maneira diferente: conforme as coisas se passam, conforme há mais dinheiro, conforme há menos dinheiro, conforme há mais alunos, conforme há menos alunos... mas temo-lo feito!”, explica.
Por tudo isto, neste momento, ter o reconhecimento de uma instituição como é a Fundação Gulbenkian, “é da maior importância”, afirma. Para o Ar.Co receber o Prémio Gulbenkian Educação “é uma grande honra e uma enorme lufada de ar fresco”, mas para Manuel Castro Caldas o mais importante é mesmo que o reconhecimento venha do lado da educação. “Isso para mim é muito importante porque o Ar.Co sempre foi visto na sociedade portuguesa – penso eu - como uma coisa meia do meio artístico. o Ar.Co o que faz é formação. Na verdade é formação artística, mas é formação”, justifica.
Com um público muito variado, nas instalações do Ar.Co é possível encontrar pessoas de todas as idades e com os mais diversos objectivos. “É no tipo de formação e no modo como dá a formação que [o Ar.Co] difere substancialmente das outras escolas”, salienta Manuel Castro Caldas. Há quem procure uma formação pontual, quase do tipo de sensibilização ou, às vezes, quase com efeitos terapêuticos - coisa de que Manuel Castro Caldas se orgulha muito porque, defende, “a formação artística é muito forte para efeitos terapêuticos”. E por outro lado, não falta uma “formação absolutamente completa, exigente, sistemática”, “de autor”, “competitiva com as outras formações existentes no mercado e sempre a automonitorizar a sua qualidade e os seus resultados” – os cursos multianuais profissionalizantes na área da cerâmica, escultura, joalharia, pintura, desenho, ilustração e banda desenhada, design gráfico, história e teoria da arte, cinema. Não foram também esquecidos os tradicionais cursos de Verão, os cursos para miúdos, e os cursos feitos noutras escolas como aconteceu este ano na St Julian’s School.
O valor do prémio Gulbenkian educação – 50 mil euros - ainda não tem nenhum destino específico mas, segundo o director executivo, vai permitir “continuar a andar para a frente e a ter planos de desenvolvimento” ao mesmo tempo que lhes dá alguma segurança de que não vão fechar a porta amanhã.
Para o futuro os planos são não estagnar, não deixar que a mediocridade; o hábito; a monotonia e a falta de interesse se instale e manter o nível de exigência alto. O objectivo “é sempre melhorar”, salienta.
26 de julho de 2007
Pais e mães a dobrar
Reformados ou a trabalhar muitos avós são um apoio fundamental na vida dos filhos e netos. Além do mimo e carinho os avós são um poço de conhecimento e experiências.
“É um cavalo bravo que foi amansado pelo filho para o neto poder montar”. É assim, desta maneira humorística, que Fernando Ribeiro Castro, da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas e já avô de nove netos, define os avós. Uma imagem que reflecte uma maior disponibilidade e paciência dos avós para com os netos, sendo que muitos assumem fazer agora com os mais pequenos aquilo que não faziam com os filhos.
E não se pense que pelo facto de as pessoas terem filhos cada vez mais tarde os avós estejam a ficar mais velhos. Muito pelo contrário. Porque a esperança de vida é maior - 81 anos para as mulheres, 74 para os homens, segundo números de 2004 -, os avós modernos são cada vez mais novos - ou cada vez menos velhos – e tendem a ser mais activos e mais autónomos.
“Como trabalham e vivem até mais tarde, mantêm-se activos e de boa saúde durante muitos anos”, explica Daniel Sampaio. O psiquiatra sublinha que hoje em dia os avós são fundamentais. A razão é simples. “Como em Portugal se apoiam muito pouco os pais, cabe aos avós essa ajuda decisiva”, justifica.
Uma ajuda que muitas vezes vai muito além da simples “guarda” dos petizes. Os avós asseguram outras funções e substituem os pais em idas a médicos, reuniões escolares, actividades extra-escolares... Na ausência dos progenitores são eles que brincam, passeiam e ensinam os mais novos, assumindo um papel de socialização das crianças e um complemento essencial na sua educação e equilíbrio emocional, transmitindo-lhes referências, segurança e afectividade.
“Os avós são os historiadores da família, trazem o passado que ajuda a reestruturar o futuro. Sem referências, não se formam as identidades nem se constróem valores. Os avós são, cada vez mais, o garante de tudo isso”, afirma Daniel Sampaio.
Fernando Ribeiro Castro, da APFN, também defende que os avós são um factor de estabilidade na família e responsáveis por uma transmissão de conhecimentos e velhas regras que vão sendo passadas por provérbios, fábulas ou histórias. Por isso mesmo, garante que o contacto de gerações é fundamental. “Perdeu-se bastante há coisa de 20 anos devido aos movimentos migratórios mas agora está-se a recuperar”. E ainda bem. “Estando longe, os pais não se apercebem dos problemas dos filhos, às vezes é necessário uma palavra ou mesmo dinheiro e essa proximidade com os pais é importante”, explica Fernando Ribeiro Castro.
“Conselheiros para os filhos” e “um apoio para os netos” os avós têm “uma seriedade que deriva da experiência de vida e da idade”. Por isso mesmo o responsável da APFN não tem dúvidas de que os pais só deixam de ser pais quando morrem. “Enquanto avós vivemos muitos problemas dos nossos filhos. É importante deixá-los errar mesmo sabendo que depois acaba por sobrar para nós”, explica. Mas é assim que se cresce, e se aprende, e se ganha a tal experiência de vida que estes avós já têm.
Fernando Ribeiro Castro já tem 9 netos. Um trabalho árduo? “É diferente. É girissimo. Há um clima e uma experiência de entreajuda entre todos. Cria-se uma comunidade de apoio, laços de família fortes com histórias comuns e um grau de confiança”, garante.
E é esta confiança nos avós – sejam as famílias mais ou menos numerosas - bem como factores de segurança e bem estar da criança, que faz com que em Portugal se recorra frequentemente a estes familiares para tomar conta dos filhos. A incompatibilidade entre os horários profissionais dos pais e os horários das escolas, jardins de infância e creches ou mesmo a insuficiência de instituições publicas assim o “obriga”.
E para os avós tomar conta dos netos diariamente ou num fim-de-semana é muito mais um prazer do que uma obrigação. E tudo se arranja. Mesmo quando a um fim-de-semana já planeado com os filhos mais novos se juntam mais 5 netos. Fernando Ribeiro Castro tem a justificação: “A alegria deles não se paga e compensa tudo”.
A criação do Dia Nacional dos Avós foi aprovada na Assembleia da República a 22 de Maio de 2003 por iniciativa da deputada social-democrata Ana Manso. A data assinala-se todos os anos a 26 de Julho, dia de Santa Ana e de São Joaquim que, como foram pais de Maria e avós de Jesus Cristo, são os padroeiros dos avós. O Dia dos Avós tem como objectivo destacar e promover o papel dos avós no seio da família e da sociedade.
Reformados ou a trabalhar muitos avós são um apoio fundamental na vida dos filhos e netos. Além do mimo e carinho os avós são um poço de conhecimento e experiências.
“É um cavalo bravo que foi amansado pelo filho para o neto poder montar”. É assim, desta maneira humorística, que Fernando Ribeiro Castro, da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas e já avô de nove netos, define os avós. Uma imagem que reflecte uma maior disponibilidade e paciência dos avós para com os netos, sendo que muitos assumem fazer agora com os mais pequenos aquilo que não faziam com os filhos.
E não se pense que pelo facto de as pessoas terem filhos cada vez mais tarde os avós estejam a ficar mais velhos. Muito pelo contrário. Porque a esperança de vida é maior - 81 anos para as mulheres, 74 para os homens, segundo números de 2004 -, os avós modernos são cada vez mais novos - ou cada vez menos velhos – e tendem a ser mais activos e mais autónomos.
“Como trabalham e vivem até mais tarde, mantêm-se activos e de boa saúde durante muitos anos”, explica Daniel Sampaio. O psiquiatra sublinha que hoje em dia os avós são fundamentais. A razão é simples. “Como em Portugal se apoiam muito pouco os pais, cabe aos avós essa ajuda decisiva”, justifica.
Uma ajuda que muitas vezes vai muito além da simples “guarda” dos petizes. Os avós asseguram outras funções e substituem os pais em idas a médicos, reuniões escolares, actividades extra-escolares... Na ausência dos progenitores são eles que brincam, passeiam e ensinam os mais novos, assumindo um papel de socialização das crianças e um complemento essencial na sua educação e equilíbrio emocional, transmitindo-lhes referências, segurança e afectividade.
“Os avós são os historiadores da família, trazem o passado que ajuda a reestruturar o futuro. Sem referências, não se formam as identidades nem se constróem valores. Os avós são, cada vez mais, o garante de tudo isso”, afirma Daniel Sampaio.
Fernando Ribeiro Castro, da APFN, também defende que os avós são um factor de estabilidade na família e responsáveis por uma transmissão de conhecimentos e velhas regras que vão sendo passadas por provérbios, fábulas ou histórias. Por isso mesmo, garante que o contacto de gerações é fundamental. “Perdeu-se bastante há coisa de 20 anos devido aos movimentos migratórios mas agora está-se a recuperar”. E ainda bem. “Estando longe, os pais não se apercebem dos problemas dos filhos, às vezes é necessário uma palavra ou mesmo dinheiro e essa proximidade com os pais é importante”, explica Fernando Ribeiro Castro.
“Conselheiros para os filhos” e “um apoio para os netos” os avós têm “uma seriedade que deriva da experiência de vida e da idade”. Por isso mesmo o responsável da APFN não tem dúvidas de que os pais só deixam de ser pais quando morrem. “Enquanto avós vivemos muitos problemas dos nossos filhos. É importante deixá-los errar mesmo sabendo que depois acaba por sobrar para nós”, explica. Mas é assim que se cresce, e se aprende, e se ganha a tal experiência de vida que estes avós já têm.
Fernando Ribeiro Castro já tem 9 netos. Um trabalho árduo? “É diferente. É girissimo. Há um clima e uma experiência de entreajuda entre todos. Cria-se uma comunidade de apoio, laços de família fortes com histórias comuns e um grau de confiança”, garante.
E é esta confiança nos avós – sejam as famílias mais ou menos numerosas - bem como factores de segurança e bem estar da criança, que faz com que em Portugal se recorra frequentemente a estes familiares para tomar conta dos filhos. A incompatibilidade entre os horários profissionais dos pais e os horários das escolas, jardins de infância e creches ou mesmo a insuficiência de instituições publicas assim o “obriga”.
E para os avós tomar conta dos netos diariamente ou num fim-de-semana é muito mais um prazer do que uma obrigação. E tudo se arranja. Mesmo quando a um fim-de-semana já planeado com os filhos mais novos se juntam mais 5 netos. Fernando Ribeiro Castro tem a justificação: “A alegria deles não se paga e compensa tudo”.
A criação do Dia Nacional dos Avós foi aprovada na Assembleia da República a 22 de Maio de 2003 por iniciativa da deputada social-democrata Ana Manso. A data assinala-se todos os anos a 26 de Julho, dia de Santa Ana e de São Joaquim que, como foram pais de Maria e avós de Jesus Cristo, são os padroeiros dos avós. O Dia dos Avós tem como objectivo destacar e promover o papel dos avós no seio da família e da sociedade.
1 de junho de 2007
Quando ir à escola magoa
Humilhações e ofensas fazem parte do dia-a-dia das vitimas de bullying. Cerca de metade dos alunos já esteve envolvida neste fenómeno. A maioria não diz nada por vergonha.
João Miguel, aluno da escola EB 2, 3 de Rio Tinto foi vitima de perseguição psicológica e ameaças físicas por parte dos colegas durante ano e meio. O jovem aluno é a mais recente vitima de bullying conhecida.
Apupos, insultos, encontrões, humilhações e ameaças são armas constantes que disparam na direcção de João Miguel e de outros tantos alunos das escolas portuguesas que, por vergonha, preferem manter o silêncio. Segundo Sónia Seixas, doutorada em psicologia, com uma tese sobre o fenómeno do bullying, estima-se que, em média, em Portugal, cerca de metade dos alunos se encontram, de algum modo, envolvidos neste tipo de comportamentos. Tanto podem ser agressores como podem ser vítimas, ou como podem ser vítimas agressivas - os alunos, normalmente menos frequentes, que assumem a dupla dimensão de serem agressores e de serem também eles vitimizados.
«O Bullying é uma conduta agressiva intencional, normalmente entre colegas, com um carácter repetitivo e sistemático que causa sofrimento na vitima e que tem como grande característica, a desigualdade de poder entre os envolvidos», explica Sónia Seixas. E é esta desigualdade de poder entre os alunos – o tamanho e força do aluno, a idade, o estatuto social, o ter ou não ter apoio por parte de outros colegas, ou estar inserido num grupo ou ter um número mais elevado de amigos - que distingue o bullying de outros tipos de violência e que o torna num fenómeno escondido.
No bullying a vitima, submetendo-se a um agressor, aquele que domina, em muitos dos casos não faz qualquer queixa porque, afirma Sónia Seixas, «têm vergonha». E isto levanta outra questão: até que ponto é que as incidências que conhecemos, seja em Portugal, seja noutros países, serão verdadeiras incidências? O fenómeno assume uma dimensão secreta, escondida, minimizada, tolerada ou ignorada por professores, pais e funcionários. «[Os casos] não são fáceis de identificar mas não costumam passar despercebidos entre colegas», alerta Sónia Seixas.
Em termos de perfil os agressores tendem a ser alunos mais auto-confiantes que utilizam a agressão como forma de domínio, reforçando assim a sua sensação de autoconfiança e de auto-estima. São alunos mais activos, com um bom autoconceito físico e socialmente enquadrados sendo vistos pelos pares com uma espécie de ídolo ou de aluno que não se afronta porque se tem medo.
Já as vítimas apresentam um baixo autoconceito, uma baixa auto-estima, uma baixa confiança em si e um maior sentimento de solidão e de isolamento social. Com um número reduzido de amigos e com tendência para serem socialmente rejeitados pelos pares são, de um modo geral, alunos mais tímidos, com uma maior dificuldade de estabelecer relações com os colegas e, consequentemente, também têm menores redes de suporte social que lhes permita ter, eventualmente, colegas que os defendam numa situação de envolvimento com alunos agressores.
Curiosamente, como sublinha Sónia Seixas, verifica-se que o bullying tem consequências no desempenho escolar de ambos os alunos – vitima e agressor - que se reflectem em baixos resultados académicos.
E não se pense que este tipo de agressão entre os alunos faz parte do desenvolvimento normal das crianças. «Os conflitos são normais no desenvolvimento da criança, o que não é natural é resolvê-los de forma agressiva e com violência», salienta Sónia Seixas.
Por isso mesmo, Ministério da Educação, professores, funcionários e pais não podem fechar os olhos face a este fenómeno – que «sempre existiu mas agora tem mais visibilidade» - e têm de cumprir o seu papel.
O primeiro passo poderá ser apostar mais na prevenção de modo a evitar o envolvimentos dos alunos neste tipo de comportamentos. Apostar na formação de professores; sensibilizar a comunidade educativa para o fenómeno do bullying, mostrando que não se trata de algo normal; criar regras de conduta e uma cultura de intolerância zero nas escolas face a estes comportamentos; incentivar a supervisão por parte dos adultos e motivá-los a gerir conflitos, e uma intervenção directa com os alunos, que também passará por ensiná-los a gerir conflitos, são algumas das medidas que Sónia Seixas acredita que podem evitar outros casos de bullying.
Mas para quem já é vitima de bullying a prevenção não chegou a tempo. O que fazer então? «Deve-se dotar a vitima de competências de assertividade para que se autoafirmem de forma afirmativa e não agressiva, não se deixando subjugar ao ataque», explica Sónia Seixas. Mas este passo, como a própria reconhece, «demora tempo».
Entretanto, enquanto estas vitimas silenciosas não desenvolvem melhor a sua auto-imagem e autoestima, há pequenos truques que podem ser seguidos: evitar sítios isolados ou locais onde estejam os agressores habituais – normalmente os episódios ocorrem no recreio ou em zonas como os balneários e os corredores, que se encontram afastadas da supervisão dos adultos -; evitar confrontos com potenciais agressores; utilizar estratégias de humor face à situação, quando são gozados ou troçados; evitar estarem sozinhos e andarem em grupo, procurando integrar-se em brincadeiras, já que sem amigos os alunos são alvos fáceis devido ao isolamento.
Os colegas podem aliás ter um papel essencial na resolução de situações de bullying. Relatando o acontecimento e deixando de ser «os chamados observadores passivos ou a maioria silenciosa», o grupo de pares deve estar sensibilizado para intervir no sentido de acabar com situações de bullying que estejam a ocorrer entre colegas e apoiarem as vitimas deste fenómeno.
Humilhações e ofensas fazem parte do dia-a-dia das vitimas de bullying. Cerca de metade dos alunos já esteve envolvida neste fenómeno. A maioria não diz nada por vergonha.
João Miguel, aluno da escola EB 2, 3 de Rio Tinto foi vitima de perseguição psicológica e ameaças físicas por parte dos colegas durante ano e meio. O jovem aluno é a mais recente vitima de bullying conhecida.
Apupos, insultos, encontrões, humilhações e ameaças são armas constantes que disparam na direcção de João Miguel e de outros tantos alunos das escolas portuguesas que, por vergonha, preferem manter o silêncio. Segundo Sónia Seixas, doutorada em psicologia, com uma tese sobre o fenómeno do bullying, estima-se que, em média, em Portugal, cerca de metade dos alunos se encontram, de algum modo, envolvidos neste tipo de comportamentos. Tanto podem ser agressores como podem ser vítimas, ou como podem ser vítimas agressivas - os alunos, normalmente menos frequentes, que assumem a dupla dimensão de serem agressores e de serem também eles vitimizados.
«O Bullying é uma conduta agressiva intencional, normalmente entre colegas, com um carácter repetitivo e sistemático que causa sofrimento na vitima e que tem como grande característica, a desigualdade de poder entre os envolvidos», explica Sónia Seixas. E é esta desigualdade de poder entre os alunos – o tamanho e força do aluno, a idade, o estatuto social, o ter ou não ter apoio por parte de outros colegas, ou estar inserido num grupo ou ter um número mais elevado de amigos - que distingue o bullying de outros tipos de violência e que o torna num fenómeno escondido.
No bullying a vitima, submetendo-se a um agressor, aquele que domina, em muitos dos casos não faz qualquer queixa porque, afirma Sónia Seixas, «têm vergonha». E isto levanta outra questão: até que ponto é que as incidências que conhecemos, seja em Portugal, seja noutros países, serão verdadeiras incidências? O fenómeno assume uma dimensão secreta, escondida, minimizada, tolerada ou ignorada por professores, pais e funcionários. «[Os casos] não são fáceis de identificar mas não costumam passar despercebidos entre colegas», alerta Sónia Seixas.
Em termos de perfil os agressores tendem a ser alunos mais auto-confiantes que utilizam a agressão como forma de domínio, reforçando assim a sua sensação de autoconfiança e de auto-estima. São alunos mais activos, com um bom autoconceito físico e socialmente enquadrados sendo vistos pelos pares com uma espécie de ídolo ou de aluno que não se afronta porque se tem medo.
Já as vítimas apresentam um baixo autoconceito, uma baixa auto-estima, uma baixa confiança em si e um maior sentimento de solidão e de isolamento social. Com um número reduzido de amigos e com tendência para serem socialmente rejeitados pelos pares são, de um modo geral, alunos mais tímidos, com uma maior dificuldade de estabelecer relações com os colegas e, consequentemente, também têm menores redes de suporte social que lhes permita ter, eventualmente, colegas que os defendam numa situação de envolvimento com alunos agressores.
Curiosamente, como sublinha Sónia Seixas, verifica-se que o bullying tem consequências no desempenho escolar de ambos os alunos – vitima e agressor - que se reflectem em baixos resultados académicos.
E não se pense que este tipo de agressão entre os alunos faz parte do desenvolvimento normal das crianças. «Os conflitos são normais no desenvolvimento da criança, o que não é natural é resolvê-los de forma agressiva e com violência», salienta Sónia Seixas.
Por isso mesmo, Ministério da Educação, professores, funcionários e pais não podem fechar os olhos face a este fenómeno – que «sempre existiu mas agora tem mais visibilidade» - e têm de cumprir o seu papel.
O primeiro passo poderá ser apostar mais na prevenção de modo a evitar o envolvimentos dos alunos neste tipo de comportamentos. Apostar na formação de professores; sensibilizar a comunidade educativa para o fenómeno do bullying, mostrando que não se trata de algo normal; criar regras de conduta e uma cultura de intolerância zero nas escolas face a estes comportamentos; incentivar a supervisão por parte dos adultos e motivá-los a gerir conflitos, e uma intervenção directa com os alunos, que também passará por ensiná-los a gerir conflitos, são algumas das medidas que Sónia Seixas acredita que podem evitar outros casos de bullying.
Mas para quem já é vitima de bullying a prevenção não chegou a tempo. O que fazer então? «Deve-se dotar a vitima de competências de assertividade para que se autoafirmem de forma afirmativa e não agressiva, não se deixando subjugar ao ataque», explica Sónia Seixas. Mas este passo, como a própria reconhece, «demora tempo».
Entretanto, enquanto estas vitimas silenciosas não desenvolvem melhor a sua auto-imagem e autoestima, há pequenos truques que podem ser seguidos: evitar sítios isolados ou locais onde estejam os agressores habituais – normalmente os episódios ocorrem no recreio ou em zonas como os balneários e os corredores, que se encontram afastadas da supervisão dos adultos -; evitar confrontos com potenciais agressores; utilizar estratégias de humor face à situação, quando são gozados ou troçados; evitar estarem sozinhos e andarem em grupo, procurando integrar-se em brincadeiras, já que sem amigos os alunos são alvos fáceis devido ao isolamento.
Os colegas podem aliás ter um papel essencial na resolução de situações de bullying. Relatando o acontecimento e deixando de ser «os chamados observadores passivos ou a maioria silenciosa», o grupo de pares deve estar sensibilizado para intervir no sentido de acabar com situações de bullying que estejam a ocorrer entre colegas e apoiarem as vitimas deste fenómeno.
8 de maio de 2007
Filosofia, para onde vais?
Está a decorrer uma petição que pede o alargamento da oferta da Filosofia e o regresso do exame. «As consequências da desvalorização da Filosofia são bem maiores do que aparentam», alertam.
Não havendo Exame Nacional de Filosofia nem no âmbito da formação específica (12º ano), nem no âmbito da formação geral (10º/11º anos), e de acordo com o quadro legal instituído, deixa de ser possível utilizar a Filosofia como critério para o acesso ao ensino superior, inclusive nos próprios cursos de Filosofia.
Esta situação não faz qualquer sentido para Maria Filomena Molder, Coordenadora do Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. E repete-se nas mais de três centenas de cursos do Ensino Superior que o requisitavam como prova de ingresso ao ensino superior, o que «veio realmente perturbar e mesmo desfigurar a relação entre o Ensino Secundário e o Ensino Universitário», argumenta a responsável académica..
A Associação de Professores de Filosofia (APF) considera «lamentável o facto de as aprendizagens em Filosofia terem deixado de ser objecto de avaliação externa», sublinhando que deveria haver um Exame Nacional que aproveitasse a presença da disciplina no currículo do Ensino Secundário como condição de acesso a cursos do Ensino Superior. Contudo, não acreditam que se esteja a dar um passo para o fim da filosofia até porque, segundo afirmam, do contacto que têm tido com o Ministério da Educação (ME), tem sido garantido que não só não se quer acabar com a disciplina no Ensino Secundário como «se reconhece a sua valência e se pretende valorizá-la».
Também Alice Santos e Luís Vilela, docentes de Filosofia, discordam do facto de se extinguir o exame e não compreendem a opção da tutela. Contudo, Alice Santos arrisca uma possível causa: «talvez por razões económicas, porque fica caro e são necessários muitos recursos humanos». Contactado pelo EDUCARE.PT o ME recusa esta hipótese mas não explicita o que o levou a tomar estas decisões.
Alice Santos defende igualmente que a Filosofia está «muito subtilmente a perder espaço [foi reduzida a disciplina opcional e retirada das disciplinas específicas]», temendo que a médio prazo seja posto em risco a obrigatoriedade da disciplina no 10º e 11º ano. A docente aponta ainda o dedo ao ME por surgirem regras numa semana, e na semana seguinte ser tudo alterado. «Os pais sentem-se angustiados e enganados pelo Ministério. Os professores são âncoras dos alunos mas muitas vezes resta-nos encolher os ombros porque não sabemos o que dizer. Quem está a promulgar não sabe o que está a fazer.», acusa.
Os próprios pais reconhecem a importância da filosofia para a formação dos filhos, defende Luís Vilela. E a explicação é simples. A Filosofia «é um espaço de dialogo e discussão, exercício de actividade argumentativa que não se encontra noutras disciplinas», garante Alice Santos. Exercício da razão, uma mais valia que dá poder para lidar com o mundo contemporâneo que outras disciplinas não dão, «primeiro estranha-se mas depois percebe-se e até se pode dominar», afirma.
Com «importância vital não só por si mas também pelas suas características», acrescenta Luís Vilela, a filosofia desenvolve capacidades argumentativas, de leitura, analise textual, clarificação e fundamentação de ideias. «Os alunos necessitam disso. Gostam disso», sublinha Luísa Almeida, docente na mesma escola.
Por tudo isto, Luís Vilela acredita que muitos pais poderão vir a assinar a petição que está a decorrer e que contém duas pretensões: alargar a oferta da disciplina de Filosofia a todos os cursos científico-humanísticos do 12.º ano e reintroduzir o exame nacional de Filosofia do 10.º/11.º anos para efeitos quer de conclusão do secundário, quer de ingresso no ensino superior.
Luísa Almeida defende que «não está em causa qualquer tipo de corporativismo» mas sim o reconhecimento da importância da filosofia. A comprová-lo decorreram vários debates com figuras de diferentes áreas profissionais e a petição já foi assinada por diversas personalidades como António Barreto, António Dias de Figueiredo, Carlos Fiolhais, Daniel Sampaio, Guilherme Valente, João Lopes Alves, José Pacheco Pereira, Nuno Crato ou Santana Castilho. A iniciativa continua a receber apoios diariamente e a petição vai continuar aberta até que as suas pretensões sejam atendidas pela tutela.
Também para a Sociedade Portuguesa de Filosofia a causa para estas medidas do ME continua a ser um mistério porque, dizem, «os vários responsáveis no ME nunca deram uma explicação científica e curricularmente fundamentada para estas decisões».
Segundo António Paulo Costa, da SPF, a verdade é que apesar de o Ministério se socorrer de argumentos segundo os quais a Filosofia teria agora mais "espaço" do que nunca a disciplina está «manifestamente a perder espaço no ensino secundário». A comprová-lo, argumenta, está «a injustificada» supressão do exame nacional de Filosofia, o «completo desincentivo» dos clubes de leitura e de estudo informal da Filosofia nas escolas; a «quase inexistência de oferta de acções de formação de Filosofia» por iniciativa do ME, bem como a aposta do ME em fazer crescer o peso do ensino profissionalizante no Secundário «onde a disciplina não está prevista».
Esta desvalorização social da Filosofia terá inevitavelmente consequências que se irão reflectir numa espécie de processo de “barbarização” de consciências «Um sistema de ensino que ignore ou desvalorize o papel decisivo de disciplinas como a filosofia no seu seio promove o aparecimento de cidadãos mais indiferentes e menos participativos, de pessoas mais acríticas e menos capazes de pensar por si», explica o responsável da SPF
Por isso mesmo garantem que o próximo passo terá de ser dado pela Ministra da Educação, que «não pode continuar a ignorar aquilo que lhe é solicitado em uníssono pela comunidade filosófica e por cidadãos que há muito perceberam que o desenvolvimento do país não pode ser feito atalhando na ciência, na cultura, na arte ou na Filosofia».
Está a decorrer uma petição que pede o alargamento da oferta da Filosofia e o regresso do exame. «As consequências da desvalorização da Filosofia são bem maiores do que aparentam», alertam.
Não havendo Exame Nacional de Filosofia nem no âmbito da formação específica (12º ano), nem no âmbito da formação geral (10º/11º anos), e de acordo com o quadro legal instituído, deixa de ser possível utilizar a Filosofia como critério para o acesso ao ensino superior, inclusive nos próprios cursos de Filosofia.
Esta situação não faz qualquer sentido para Maria Filomena Molder, Coordenadora do Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. E repete-se nas mais de três centenas de cursos do Ensino Superior que o requisitavam como prova de ingresso ao ensino superior, o que «veio realmente perturbar e mesmo desfigurar a relação entre o Ensino Secundário e o Ensino Universitário», argumenta a responsável académica..
A Associação de Professores de Filosofia (APF) considera «lamentável o facto de as aprendizagens em Filosofia terem deixado de ser objecto de avaliação externa», sublinhando que deveria haver um Exame Nacional que aproveitasse a presença da disciplina no currículo do Ensino Secundário como condição de acesso a cursos do Ensino Superior. Contudo, não acreditam que se esteja a dar um passo para o fim da filosofia até porque, segundo afirmam, do contacto que têm tido com o Ministério da Educação (ME), tem sido garantido que não só não se quer acabar com a disciplina no Ensino Secundário como «se reconhece a sua valência e se pretende valorizá-la».
Também Alice Santos e Luís Vilela, docentes de Filosofia, discordam do facto de se extinguir o exame e não compreendem a opção da tutela. Contudo, Alice Santos arrisca uma possível causa: «talvez por razões económicas, porque fica caro e são necessários muitos recursos humanos». Contactado pelo EDUCARE.PT o ME recusa esta hipótese mas não explicita o que o levou a tomar estas decisões.
Alice Santos defende igualmente que a Filosofia está «muito subtilmente a perder espaço [foi reduzida a disciplina opcional e retirada das disciplinas específicas]», temendo que a médio prazo seja posto em risco a obrigatoriedade da disciplina no 10º e 11º ano. A docente aponta ainda o dedo ao ME por surgirem regras numa semana, e na semana seguinte ser tudo alterado. «Os pais sentem-se angustiados e enganados pelo Ministério. Os professores são âncoras dos alunos mas muitas vezes resta-nos encolher os ombros porque não sabemos o que dizer. Quem está a promulgar não sabe o que está a fazer.», acusa.
Os próprios pais reconhecem a importância da filosofia para a formação dos filhos, defende Luís Vilela. E a explicação é simples. A Filosofia «é um espaço de dialogo e discussão, exercício de actividade argumentativa que não se encontra noutras disciplinas», garante Alice Santos. Exercício da razão, uma mais valia que dá poder para lidar com o mundo contemporâneo que outras disciplinas não dão, «primeiro estranha-se mas depois percebe-se e até se pode dominar», afirma.
Com «importância vital não só por si mas também pelas suas características», acrescenta Luís Vilela, a filosofia desenvolve capacidades argumentativas, de leitura, analise textual, clarificação e fundamentação de ideias. «Os alunos necessitam disso. Gostam disso», sublinha Luísa Almeida, docente na mesma escola.
Por tudo isto, Luís Vilela acredita que muitos pais poderão vir a assinar a petição que está a decorrer e que contém duas pretensões: alargar a oferta da disciplina de Filosofia a todos os cursos científico-humanísticos do 12.º ano e reintroduzir o exame nacional de Filosofia do 10.º/11.º anos para efeitos quer de conclusão do secundário, quer de ingresso no ensino superior.
Luísa Almeida defende que «não está em causa qualquer tipo de corporativismo» mas sim o reconhecimento da importância da filosofia. A comprová-lo decorreram vários debates com figuras de diferentes áreas profissionais e a petição já foi assinada por diversas personalidades como António Barreto, António Dias de Figueiredo, Carlos Fiolhais, Daniel Sampaio, Guilherme Valente, João Lopes Alves, José Pacheco Pereira, Nuno Crato ou Santana Castilho. A iniciativa continua a receber apoios diariamente e a petição vai continuar aberta até que as suas pretensões sejam atendidas pela tutela.
Também para a Sociedade Portuguesa de Filosofia a causa para estas medidas do ME continua a ser um mistério porque, dizem, «os vários responsáveis no ME nunca deram uma explicação científica e curricularmente fundamentada para estas decisões».
Segundo António Paulo Costa, da SPF, a verdade é que apesar de o Ministério se socorrer de argumentos segundo os quais a Filosofia teria agora mais "espaço" do que nunca a disciplina está «manifestamente a perder espaço no ensino secundário». A comprová-lo, argumenta, está «a injustificada» supressão do exame nacional de Filosofia, o «completo desincentivo» dos clubes de leitura e de estudo informal da Filosofia nas escolas; a «quase inexistência de oferta de acções de formação de Filosofia» por iniciativa do ME, bem como a aposta do ME em fazer crescer o peso do ensino profissionalizante no Secundário «onde a disciplina não está prevista».
Esta desvalorização social da Filosofia terá inevitavelmente consequências que se irão reflectir numa espécie de processo de “barbarização” de consciências «Um sistema de ensino que ignore ou desvalorize o papel decisivo de disciplinas como a filosofia no seu seio promove o aparecimento de cidadãos mais indiferentes e menos participativos, de pessoas mais acríticas e menos capazes de pensar por si», explica o responsável da SPF
Por isso mesmo garantem que o próximo passo terá de ser dado pela Ministra da Educação, que «não pode continuar a ignorar aquilo que lhe é solicitado em uníssono pela comunidade filosófica e por cidadãos que há muito perceberam que o desenvolvimento do país não pode ser feito atalhando na ciência, na cultura, na arte ou na Filosofia».
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