18 de janeiro de 2007

Substituição de professores alvo de criticas

FNE e FENPROF alegam que o processo conduzido pelas escolas nos concursos para substituição de professores é burocrático e demorado e querem que seja restabelecido o recurso à lista nacional de graduação.


«O Ministério da Educação está a provocar uma grande confusão nas escolas e uma angustia nos professores». A afirmação é feita num comunicado divulgado pela FENPROF e justifica-se pelo fim das colocações cíclicas no final do 1º período.

Até aqui todo o processo era conduzido pelo Ministério da Educação e, como explica a FNE, «um professor de baixa ou licença de maternidade, por exemplo, era substituído pelo docente desempregado que tivesse a graduação mais elevada» através do recurso à lista nacional de graduação. Agora, o decreto-lei que introduziu no ano passado as alterações ao concurso de professores «estabelece que a partir deste mês passam a ser as escolas a abrir concursos para assegurar estas substituições, publicitando-os na imprensa e na Internet».


Esta alteração está já a gerar dificuldades em diversas escolas do país. A FENPROF exemplifica em comunicado a situação que se vive em alguns estabelecimentos de ensino: «na EB 2,3 da Mealhada são mais de 700 candidatos para um horário, no Agrupamento de Escolas de Taveiro (Coimbra) há mais de 300 candidaturas para uma substituição em Jardim de Infância e na EB 2,3 João Gonçalves Zarco, em Lisboa, são também centenas de candidatos».

Uma vez que têm de analisar centenas de candidaturas, os estabelecimentos de ensino estão assim na opinião da FNE «com uma sobrecarga inútil de trabalho perfeitamente dispensável se pudessem continuar a recorrer ao processo das colocações cíclicas».

Mas este não é o único problema. De acordo com a FNE, «este procedimento está a decorrer sem qualquer uniformidade ou sequer proximidade de actuação entre as diferentes escolas, no que toca aos documentos a apresentar para a candidatura e ainda à forma da sua apresentação». A FENPROF corrobora este facto e garante que «algumas escolas exigem que a candidatura seja apresentada em impressos que apenas se obtém na Secretaria da própria escola» e «outras escolas exigem o envio de currículos dos candidatos apenas aceitando a documentação em suporte de papel». Tudo isto, adianta a FENPROF, «torna mais difícil a apresentação de candidatura (presencial ou via postal) com o efectivo encarecimento do seu processo e consequente burocratização».

Além disso, «trata-se de uma situação em que obviamente nem as escolas nem os candidatos saem beneficiados» conclui a FNE, sublinhando que «sempre se manifestou contra esta opção do Ministério da Educação».

A FENPROF garante que esta decisão «está a consumir recursos humanos, recursos materiais e recursos financeiros das escolas sem que tal se justificasse e, principalmente, porque as alternativas estavam criadas» e salienta que «os grandes prejudicados são também os alunos que ficarão sem aulas durante um período mais longo do que o possível, o desejável e o necessário»

FENPROF e FNE querem que seja restabelecido, por parte do Ministério da Educação, o recurso à lista nacional de graduação «como referencial para as colocações» para que o recrutamento de docentes volte a respeitar essa lista, simplificando assim todo o processo. A FNE defende ainda que «as substituições devem voltar a ser realizadas pela tutela, como acontecia até agora».

Contactado pela agência Lusa, o Ministério da Educação recusou fazer qualquer comentário sobre esta matéria.

17 de janeiro de 2007

Sindicatos contra alterações do ensino básico

FNE e FENPROF acusam o governo de não ter ouvido nenhum sindicato sobre esta matéria e afirmam que as medidas anunciadas conduzem a soluções desajustadas

Depois das «informações vagas e imprecisas» divulgadas ontem sobre a criação da figura do professor-tutor no 2 º Ciclo do Ensino Básico a Federação Nacional dos Sindicatos de Educação (FNE) vem agora duvidar «da pressa do Ministério da Educação em fazer anunciar precipitadamente, e sem qualquer enquadramento ou justificação» estas medidas.

Reunida no Porto, a comissão permanente da FNE denuncia hoje, em comunicado, «o processo que foi seguido, sem ter sido auscultado formalmente nenhum sindicato». Consideram ainda que a medida anunciada «não está a ser cruzada com outras que seriam absolutamente necessárias, para o impacto que esta traz, como a reformulação dos currículos escolares, da organização dos tempos escolares, da carga horária dos alunos, da constituição das equipas pedagógicas e de toda a dinâmica escolar». Para a FNE uma medida com este impacto «supõe uma reforma coerente do sistema educativo, desde o Ensino Superior ao Pré-escolar».

Em comunicado, e face às medidas apresentadas, a FNE denuncia ainda que «uma vez mais, os professores e alunos podem estar a servir de cobaias às medidas pseudo-científicas de cada ministro ou governo»
A FNE entende que «a formação de professores deve ser reorientada, no sentido de que, para o 2º ciclo de escolaridade, se garanta a existência de docentes que assegurem a leccionação de grandes áreas disciplinares» mas não aceita «que um qualquer docente possa ser responsabilizado pela totalidade das áreas disciplinares».
A FNE está disponível para contribuir para se encontrarem soluções e «exige que as soluções que sobre esta matéria venham a ser assumidas tenham que passar por um processo de intervenção e participação que ajude a definir os caminhos adequados».

Ainda ontem, a FENPROF mostrou também o seu desagrado face às medidas anunciadas denunciando que esta é «uma matéria que não foi negociada com as organizações sindicais». O comunicado divulgado acusa ainda o Ministério da Educação de se assumir «como o detentor da verdade», sublinhando que «tal presunção abre sempre a porta a soluções desajustadas».

Segundo a FENPROF aquilo que o Governo agora designa de “professor tutor” está longe das funções de coordenação que no passado chegaram, sob essa designação, a ser propostas por anteriores governos, identificando antes um «super-professor» que «leccionará, no 5º e 6º ano de escolaridade, áreas do conhecimento tão diferentes como Português, Matemática, Ciências da Natureza, História, Geografia e Expressões» A FENPROF não concorda com a situação e entende que «para estes anos de escolaridade, a formação inicial de professores não pode fazer-se para um tão largo leque de áreas». No comunicado pode ainda ler-se que «não é verdade que no 5º e 6º ano de escolaridade os alunos tenham 10 professores». A FENPROF afirma que «salvo uma ou outra escola, os alunos têm para as várias áreas 6 professores» o que vai ao encontro da recomendação do Ministério da Educação para, sempre que possível, existirem professores multidisciplinares.

Em relação à comparação feita com outros países da União Europeia – onde o modelo divulgado será seguido – a FENPROF acrescenta que «seria bom que o Ministério da Educação recordasse que em muitos deles o 1º ciclo do ensino básico funciona com equipas educativas», como na Finlândia e em Espanha. Por cá, como explica o comunicado, «o 1º ciclo do ensino básico continua a ser leccionado por um único professor apesar de a Lei de Bases do Sistema Educativo prever, desde 1986, a necessidade de ser coadjuvado em algumas áreas». A FENPROF acrescenta que «este e outros governos nunca cumpriram aquelas disposições legais».

A FENPROF acusa ainda o governo de estar «ilegalmente a fazer uma revisão da Lei de Bases do Sistema Educativo» cujas alterações, «são da competência exclusiva da Assembleia da República». Segundo explicam, «as disposições da Lei de Bases do Sistema Educativo não permitem ao Governo proceder a estas alterações na formação inicial de professores e na organização do ensino básico». Para a FENPROF aquilo que o Governo e o Ministério da Educação realmente pretendem com esta decisão é «facilitar a gestão flexível dos profissionais da educação e simultaneamente fazer poupanças na formação inicial de professores» em detrimento «da qualidade da escola pública e das aprendizagens das crianças e jovens».

XXV Olimpíadas Portuguesas de Matemática em final Regional

Alunos de todo o país e da secção Portuguesa da Escola Europeia de Bruxelas participam, hoje, na segunda eliminatória das Olimpíadas. 60 alunos serão seleccionados para a final nacional.

1500 alunos estarão esta tarde espalhados por várias escolas de Norte a Sul do país, nas Ilhas e, pela primeira vez, na secção Portuguesa da Escola Europeia de Bruxelas, para participarem na final regional das XXV Olimpíadas Portuguesas de Matemática. Desta eliminatória sairão depois os 60 estudantes que vão participar na final nacional.

Nesta final regional participam apenas os estudantes das categorias A (8º e 9º ano), e B (10º ao 12º ano), já apurados a partir de um grupo de mais de 25 mil jovens espalhados por todo o país. «Em cada região – Norte, Centro e Sul – estarão presentes nesta eliminatória os 50 melhores colocados em cada categoria, e o primeiro colocado das escolas que não tiveram alunos no grupo dos 50», explica em comunicado a Sociedade Portuguesa de Matemática. Os alunos da secção Portuguesa da Escola Europeia de Bruxelas concorrem juntamente com os da região Sul e Ilhas.

Os alunos que alcançarem, mais logo, pelas 15h30, na eliminatória regional, as 10 primeiras colocações na sua categoria e região têm lugar garantido na final nacional que, este ano, terá lugar na Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Lisboa.

As Olimpíadas Portuguesas de Matemática são organizadas pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e proporcionam aos estudantes desafios que exigem raciocínio, criatividade e imaginação. O objectivo, garantem, é «desenvolver o gosto pela matemática».

As provas são elaboradas para três categorias diferentes: as Pré-Olimpíadas, pensadas para estudantes do 7º ano, mas onde as escolas podem também inscrever alunos do 5º e 6º ano – que participam apenas na primeira eliminatória -; a categoria A, para estudantes do 8º e 9º anos; e a categoria B, para alunos do 10º ao 12º ano.
Depois das inscrições – onde, de acordo com a SPM, se registou a maior participação de sempre, seguiu-se uma primeira eliminatória, que decorreu a 8 de Novembro de 2006, com alunos de todas as categorias, que realizaram as provas nas escolas. A preparação destes estudantes para a competição matemática e a posterior correcção dos exercícios coube também aos professores de cada escola.

Agora chegou a vez da 2ª eliminatória que vai conduzir 60 alunos até à final nacional, que vai decorrer entre 22 e 25 de Março, em Lisboa. Os estudantes da categoria B que forem medalhados na final concorrem para representar Portugal nas duas principais competições internacionais: as Olimpíadas Internacionais de Matemática, em Julho, e as Olimpíadas Ibero-americanas de Matemática, em Setembro. A preparação das equipas Olímpicas portuguesas às competições internacionais de matemática estará a cargo do Projecto Delfos do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra.

Em 2006, Portugal conquistou três medalhas de Bronze e uma menção honrosa nas Olimpíadas Internacionais de Matemática e nas Olimpíadas Ibero Americanas de Matemática. Este ano estas competições vão decorrer no Vietname e em Coimbra, respectivamente.

2007 é um ano especial para as Olimpíadas Portuguesas de Matemática não só porque é a primeira vez que Portugal vai receber as Olimpíadas Ibero-americanas, mas também porque se assinala a 25ª edição das Olimpíadas Portuguesas de Matemática que, segundo a Sociedade Portuguesa de Matemática, «será comemorada com uma exposição» e também com a «reunião dos antigos vencedores por ocasião da final».

As Olimpíadas Portuguesas de Matemática são patrocinadas pelo Ministério da Educação, o Ciência Inovação 2010, o Banco Espirito Santo e a Fundação Calouste Gulbenkian e têm também o apoio do jornal Público e da Porto Editora.


16 de janeiro de 2007

Governo quer professor único para o 2º Ciclo

Ministério da Educação pretende criar a figura de “professor-tutor” no 5º e 6º ano. O docente terá de leccionar várias áreas básicas como a Matemática e o Português.


O executivo de José Sócrates pretende que os alunos até ao 6º ano tenham um único professor a leccionar áreas básicas. A medida, avançada hoje pelo Diário Económico, vai ao encontro do que é praticado na maioria dos países da União Europeia e, segundo o Secretário de Estado da Educação Valter Lemos, «prevê a criação de um regime de mono-docência coadjuvada, ou de um professor central ou tutor no 5º e 6º ano de escolaridade»

Por outras palavras, e como explica Valter Lemos, com o novo sistema passará a existir «um professor-tutor que tenha capacidade para leccionar as áreas básicas (Português, Matemática, Ciências da Natureza, História, Geografia de Portugal e Expressões) apoiado por docentes de outras áreas profissionais».

Com esta medida pretende-se também amenizar a transição curricular das crianças do quarto para o quinto ano, onde os alunos passam de um único professor no 1º Ciclo para 10 professores o 2º Ciclo. Esta situação não existe em mais nenhum país europeu e tem sido aliás uma das principais criticas ao sistema de educação português. O Secretário de Estado da Educação adianta ainda que «a evolução natural do sistema português prevê que exista um docente no 1º ciclo e quatro ou cinco no 2º ciclo». Actualmente existe já uma recomendação do Ministério da Educação para, sempre que possível, existirem professores multidisciplinares, situação que é seguida já em algumas escolas do País.

Esta alteração está já a ser preparada com a aprovação do novo regime de habilitações para a docência que cria um perfil de docente generalista que passa a incluir a habilitação conjunta para o primeiro e segundo ciclos. Os docentes polivalentes terão de ter uma qualificação extra, com um mestrado em ensino. «Para além da licenciatura em educação básica, terá de ter um mestrado com 30 créditos em Português, 30 créditos em Matemática, 30 créditos em Estudo do Meio que inclui Ciências da Natureza, História e Geografia em Portugal para além de 30 créditos em Expressões» adiantou Valter LemosPara o Secretário de Estado da Educação, o objectivo é formar professores que estejam preparados para assumir este perfil, comum na maioria dos países europeus. Haverá assim um «reforço na formação de professores na componente científica, académica e prática profissional»

Por outro lado, as alterações ao diploma vão também permitir travar o acesso à profissão de docente de «diplomados do ensino superior sem qualificação principal para a docência» e sem «qualificação disciplinar ou profissional adequadas».
O novo diploma que regula as habilitações para a docência está agora na Presidência da República onde aguarda promulgação.

Os sindicatos já reagiram a estas alterações e têm opiniões divergentes. Para Francisco Almeida, da Federação Nacional de Professores (FENPROF), esta medida é «uma tentativa de facilitar a gestão de recursos humanos nestes ciclos em detrimento da qualidade». Já a sindicalista Conceição Alves Pinto, da Federação Nacional de Educação (FNE), considera serem necessárias mais explicações sobre esta matéria, mas adianta ser possível a redução de docentes «desde que seja dentro da lógica de que há professores com formação para mais do que uma disciplina».
O secretário de estado Valter Lemos recusa qualquer acusação desta medida ter uma vertente economicista e sublinha ainda que «temos os piores resultados da Europa». Por isso, garante, o que está em causa com estas medidas é «alcançar melhores resultados» e «aproximar Portugal dos outros países europeus».

O poder da Matemática

Já pensou em utilizar a matemática no combate ao crime ou aos incêndios? O ciclo de colóquios “A Matemática das Coisas” vai explicar-lhe isto, e muito mais.


“A Matemática das Coisas” está de volta ao Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva, no Parque das Nações, em Lisboa. Durante os próximos meses, e até Junho, este ciclo de colóquios pretende apresentar ao público uma visão diferente da matemática.

Para mostrar que a matemática continua a fazer parte do dia-a-dia de todos, estarão presentes nas palestras não só matemáticos, mas também especialistas em diferentes áreas profissionais. Desta vez, foram convidados para colaborar nesta iniciativa engenheiros, treinadores desportivos, elementos da Polícia de Segurança Pública e da Protecção Civil. Em conjunto com um matemático estes intervenientes vão mostrar a todos a importância da matemática e, como explica Catarina Figueira do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva, «demonstrar até que ponto a matemática está presente noutras áreas profissionais» como na Calçada Portuguesa, nas previsões meteorológicas, no combate ao crime, na luta contra os incêndios ou mesmo num simples jogo de basquetebol.

“A Matemática das Coisas” começou no passado sábado, dia 13 de Janeiro, e nesta primeira sessão todos os presentes foram convidados a «pôr os pés na matemática» para ficarem a conhecer as simetrias da Calçada Portuguesa. A matemática Ana Cannas da Silva, do Instituto Superior Técnico, e a engenheira Luísa Dornelas, da Câmara Municipal de Lisboa, mostraram que as diversas figuras da Calçada Portuguesa «são mais do que lindas imagens» e que todas elas «contêm Matemática».

A próxima sessão deste ciclo de colóquios está marcada para o dia 24 de Fevereiro, altura em que os professores José Ferreira Alves, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e Pedro Miranda, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, se juntam para apresentar “As Contas da Chuva – a Matemática e as Previsões Meteorológicas”.

Cada sessão dura aproximadamente hora e meia, corre ao sabor de uma conversa informal entre os convidados e depois dá lugar ao debate com o público presente.

Esta iniciativa resulta de uma parceria entre o Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva e a Sociedade Portuguesa de Matemática e está inserida nas “Tardes de Matemática” que ocorrem em Lisboa desde 2001, e já se estenderam também ao Porto e ao Funchal.

E se pensa que a matemática não atrai pessoas, Catarina Figueira, garante que «o auditório está sempre muito composto» e acrescenta que iniciativas como esta servem também para «desmistificar alguns receios» que ainda existem em torno desta área

Os colóquios têm inicio marcado para as 15h30, no auditório do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva, e a entrada é gratuita.

O ano passado “A Matemática das Coisas” convidou um historiador, um químico, um arquitecto, um sociólogo e um padre para participarem nestes colóquios para, todos juntos, mostrarem que a matemática está presente em muitas coisas da vida desde a criptografia, passando pela química ou mesmo nos encontros amorosos. Este ano as áreas são naturalmente diferentes mas o objectivo é comum: mostrar que a matemática é importante, está presente em todo o lado e está viva.

22 de abril de 2003

CULTURA
Levity: tranquilidade, luz, cor e muita magia

Quem passar nos próximos dias pelo Centro Cultural de Belém vai encontrar uma estrutura no mínimo estranha. Já lhe chamaram catedral, nave espacial ou até mesmo bolo de aniversário. Levity é uma estrutura pneumática, idealizada por Alan Parkinson, que em tempo de férias da Páscoa promete entreter as crianças e relaxar os adultos. Lá dentro espera-os um jogo de luz e de cor acompanhado por uma música tranquila. Um programa para toda a família que pode ser visto até 1 de Maio.

À primeira vista é uma tenda enorme, muito colorida e com um formato diferente. Uns dizem que se parece com um bolo enorme, outros com um castelo encantado. Para Madalena Vitorino, responsável pelo centro de pedagogia e animação, «é o nosso bolo», numa referência ao aniversário do Centro Cultural de Belém (CCB).

Mas o que é afinal esta estrutura colorida instalada na praça do museu no CCB que dá pelo nome de «Levity»? Alain Parkinson é um dos criadores e explica: «É um conjunto de torres que estão ligadas por túneis e algumas das torres têm cores muito dominantes. É uma reinterpretação de uma forma geométrica sólida numa forma plástica pneumática».

Se o exterior da estrutura, só por si, já suscita alguma surpresa entre quem chega, no interior a situação não é diferente. Marta e Miguel Nunes são irmãos. Têm sete e treze anos, respectivamente, e aproveitaram uma tarde sem aulas para virem com os pais ver o «Levity». Comprados os bilhetes é tempo de partir à descoberta. O primeiro passo é tirar os sapatos porque «o plástico é um material delicado e lá dentro só se pode andar de meias», como explica um dos monitores que recebe os visitantes. Descalços, atravessam a «porta de embarque» e entram num enorme labirinto feito de plástico colorido. Lá dentro não há absolutamente nada. São 800 metros quadrados de plástico onde só há ar, luz natural, muita cor e uma música tranquila que acompanha os visitantes.

De olhos bem abertos, as reacções dos mais novos não se fazem esperar. «Tantas cores! Parece o arco-íris...», diz Marta admirada. O irmão prefere fazer comparações com a praia: «ali parece uma gruta da praia e a música...lembra o mar e o vento». Os pais sorriem... Para eles é diferente - aquilo que os seduz é a tranquilidade que ali se sente.

«Levity» é acima de tudo um mundo sensorial que varia de pessoa para pessoa, de momento para momento, de espaço para espaço consoante a luz que atravessa os plásticos coloridos cortados e colados à mão. Algumas zonas são mais escuras e frescas outras mais claras e quentes. «Aquilo que se vê e sente depende da imaginação de cada um» referem os guias.

Do verde passam para o vermelho, depois para o azul e no centro encontram uma grande abóbada multicolor. O espaço já estava explorado mas ninguém se queria ir embora. «Podemos brincar às escondidas?» pergunta Marta. Porque não? «Levity» é um espaço de liberdade onde se pode fazer quase tudo. E não há que ter pressa: pode-se lá ficar o tempo que se quiser. «É um espaço que convida ao relaxamento» diz Alain Parkinson. Por isso mesmo não estranhe se encontrar aqui e ali algumas pessoas sentadas ou deitadas, de olhos fechados (ou mesmo a dormir) a aproveitar o momento. Esse é aliás um dos objectivos desta estrutura.

Os pais de Marta e Miguel não fogem à regra e enquanto os filhos se escondem algures no labirinto colorido eles aproveitam para se libertarem «do stress acumulado depois de uma semana de trabalho», explicam.
Em contrapartida as crianças de várias escolas que exploram o espaço, em fila indiana e de mão dada, não parecem interessadas em relaxar. Tal como Marta e Miguel preferiam estar a saltar e a brincar dentro do enorme labirinto. Muitas achavam que o Levity «era mais um castelo insuflável», mas mesmo assim não saem desapontadas. Sentam-se, deitam-se, ouvem histórias e fazem pequenos jogos comandados pela imaginação. Afinal, lá dentro, quase tudo é possível.

Levity foi criado em 1992 e já viajou de Berlim a Dublin e de Singapura a Seatle. Em Lisboa pode ser visto, até 1 de Maio, no CCB. Há visitas guiadas e livres e, paralelamente, funcionam várias oficinas de dança, artes plásticas e escrita que permitem desenvolver actividades com os mais novos.

trabalho universitário

8 de abril de 2003

Ano Europeu da Pessoa com Deficiência
Falar e cantar com as mãos


Paula Teixeira tem 27 anos e faz aquilo que gosta. A música deixou de ser um hobbie. A língua gestual deixou de ser gestos sem sentido. Paula juntou as duas actividades, abandonou o curso de educadora de infância especial e hoje é cantora e intérprete de língua gestual. Às quartas-feiras podemos encontrá-la a actuar n’ Os Templários, um bar da noite lisboeta. Na manhã seguinte, depois de quase fazer uma directa, está a gravar o programa que a tornou conhecida entre as crianças. Pelo meio trabalha na Associação Portuguesa de Surdos. Surdos e ouvintes podem vê-la ao fim-de-semana no «Batatoon» num cantinho da televisão a traduzir o mundo da fantasia.

Falámos com Paula Teixeira antes de uma das suas actuações e entre um café e umas pipocas com sal a menina que fala com as mãos deu a conhecer um pouco mais de si e da comunidade surda.

Quando é que começou a ser intérprete de língua gestual?
Comecei há mais ou menos sete anos. Sempre tive uma grande curiosidade de saber o que eram aqueles gestos, o que é que aquilo queria dizer. Na altura estava a tirar o curso de educadora de infância especial e comecei o curso básico de língua gestual onde aprendi as bases da língua.

E depois?
Mal entrei naquela associação era só surdos e o interesse começou a crescer. Ainda por cima tive um professor que é irresistível.

Antes do curso de língua gestual já conhecia pessoas surdas?
Não conhecia absolutamente ninguém. Meti-me ali assim do zero. Mas normalmente a grande parte dos intérpretes que existe tem familiares surdos e teve necessidade de aprender a língua para servir de intérprete para a família. E aprendem a língua desde muito pequeninos. Imagina que os teus pais são surdos, não te ensinam a dizer mamã. ensinam-te a dizer mamã [faz a palavra com as mãos] com um gesto. E eu vejo isso: miúdos pequeninos que são ouvintes mas têm os pais surdos falam muito pouco.

Foi fácil conciliar os dois cursos?
Eu estava a tirar os dois cursos ao mesmo tempo e como tinham horários incompatíveis tive de escolher. Ou escolhes o curso que te dá o canudo e o estatuto para educadora de infância ou então segues o que o teu coração te diz e não tens nenhum diploma mas é aquilo que realmente sentes que deves fazer. E foi o que eu fiz. Desisti da faculdade e meti-me de corpo e alma no curso de intérprete. Foi um curso intensivo, durou três anos, mas mesmo assim é muito difícil aprender as bases todas e aprender a língua gestual toda. É muito complicado...

Quais foram as maiores dificuldades que teve nessa aprendizagem?
A grande dificuldade deste curso é que se não tiveres ninguém com quem falar perdes a língua automaticamente. Eu aprendi muito mais depois do curso porque comecei a fazer amizades com surdos e a ter um relacionamento muito mais profundo e sistemático. Nessa altura tens de te safar de qualquer maneira e estás sempre a pensar “ como é que se diz isto”. É muito complicado porque a língua gestual também tem as suas características gramaticais e é sempre difícil entender logo à primeira. São precisos muitos anos. É difícil, mas quando se gosta realmente acho que se vai até ao fim.

Acha que a língua gestual poderia ser uma disciplina de opção ao nível do secundário tal como o inglês, o francês ou o alemão?
Acho! Acho que isso devia ser implantado em Portugal. Para já porque há muita procura, muito interesse e, porque não? Porque não aprender outra língua que é tão importante como o inglês ou o francês. É uma língua, é a língua dos surdos. Mas é tão bonito de se ver, de falar. Porque não aprender?

Como é que surge a música no meio disto tudo?
Comecei a cantar aos 12 anos numa festa de solidariedade para crianças deficientes profundas no Teatro Maria Matos. Foi a primeira vez que pisei um palco na minha vida. Depois foram surgindo outras coisas...
Formou bandas, tocou em bares, cruzeiros de turismo, casinos, participou no «Reis do Estúdio» e ficou em segundo lugar na final do «Chuva de Estrelas». O programa abriu-lhe portas?
Foi muito bom... Passado estes anos todos ainda fazemos espectáculos juntos. No início de Abril vamos à Alemanha. O «Chuva» abriu portas a nível de concertos maiores e tive muitos convites para gravar - propostas aliciantes, principalmente a nível monetário - mas eu só ia gravar se cantasse uma coisa com alma e decidi esperar e acreditar que algum dia ia chegar a minha oportunidade.

Essa oportunidade acabou por surgir...
Sim. Eu estava a tocar com a minha banda num bar e estava lá o director da Universal que deixou recado ao dono do bar para eu ir no dia seguinte à Editora. Eu achei estranho mas fui ver...foi muito bom porque ia de encontro ao que eu estava à espera. Mas depois ele saiu da Universal e eu fui com ele.

E o que é que aconteceu?
Ele acabou por se ir embora mas deixou-me numa editora independente, a Off The Record, que lançou o disco [Promessa]. Acreditei que por ser mais pequena se calhar me dava mais apoio mas não é bem assim porque quando não há muito poder económico as coisas não andam, é complicado...

E o novo álbum?
Já está a ser preparado mas vamos lá ver. Não antecipo datas porque não quero precipitar as coisas... Quando estiver tudo sera lançado!

Como é que vai ser?
Vai ter mais rock, vai ser mais eu. Vai ter mais músicas minhas. Estou a escrever muito mais porque acho que é muito importante um artista não só interpretar as músicas mas também compor. Se as fizer vai cantar com muito mais alma.

Os Surdos sentem a música?
Sim, sentem. E isso eu aprendi com eles. Na altura em que entrei no curso de língua gestual e no tal mundo do silêncio fui ao «Chuva de Estrelas» cantar Gloria Estefan e foi espectacular porque quando eu cheguei à Associação eles disseram-me «cantaste muito bem, adorámos ouvir-te cantar». Aquilo soou-me tão estranho... E eles viram que a minha cara devia ser estranhíssima. Até que depois me explicaram o que é que tinham feito: tinham posto a televisão no máximo e metido as mãos nas colunas, sentiam o que eu estava a cantar, as vibrações, a alma da música.

Isso foi muito importante ?
Sim, a partir daí tracei um rumo à minha vida, fez-se luz. Passado algumas semanas fiz um concerto para uma plateia de surdos e foi espectacular. Uma coisa de que me orgulho bastante é de agora ter o meu próprio projecto de originais, com a minha própria música e cantar em língua gestual. Ou seja, a música tanto chega aos ouvintes, como aos surdos ou aos cegos. Chega a toda a gente. E eles ensinaram-me isso. Porque eu não tinha a noção do que era sentir a música. Quando consegues transmitir alma e sentimento àquelas pessoas que não te ouvem mas estão ali a vibrar e a cantar contigo o refrão é espectacular...

Como é que surgiu a ideia de também cantar em língua gestual?
Foi na própria associação de surdos onde trabalho. Eu nunca tinha pensado nisso. Foram eles que me incentivaram a fazê-lo. Orgulho-me bastante e quero sensibilizar as pessoas para isso porque acho que é muito importante e eles também estão muito orgulhosos por isso, porque alguém os está a valorizar, está a dizer que «não somos assim tão anormais, somos perfeitamente normais, também ouvimos música».

Faz sempre a língua gestual enquanto está cantar?
Normalmente, mesmo que não estejam surdos tento sempre sensibilizar as pessoas. Eu acho que é tornar a música especial. Mas se há pessoas que não estão a ligar ou se estão naquela de estar a ouvir música mas sem prestar muita atenção então não faço. Não quero banalizar a língua. Mas quando há surdos... - e eles vêm, vêm aqui imensos surdos, o que é estranho para as pessoas verem entrar uma data de surdos a gesticular por todo o lado - e eu vou cantar tento traduzir para não estarem tão à parte.

É difícil?
É complicado porque é um grande desafio cantares músicas que nem sequer estás a imaginar como é aquilo traduzido. Mas como sabes que tens ali pessoas a olhar para ti e à espera de perceber aquilo que estás a dizer tento sempre traduzir da melhor maneira. Não sou uma expert, ainda me falta muito para ser uma grande interprete mas tenho muita vontade de aprender.

A par da música também colaborou com diversos programas televisivos...
No «Big Brother» foi muito giro e foi muito importante porque muita gente via o BB. Os concorrentes empenharam-se bastante e quando a Adelaide Ferreira foi lá eles acabaram por cantar novamente em língua gestual... Muita gente ficou interessada e sensibilizada com a comunidade surda e a língua gestual. Para além disso, continuo no «Batatoon» a passar o mundo da fantasia aos meninos que não ouvem. Infelizmente o programa agora é só aos fins-de-semana, às 7.30 da manhã.

Acha que essa mediatização da língua gestual tem sensibilizado mais as pessoas face à comunidade surda?
Acho, acho mesmo. Há muito mais procura... Na Associação de Surdos há inúmeros telefonemas a dizer «vi na televisão», «como é que se aprende», «gostava de aprender» e há muitas pessoas na rua que às vezes me perguntam «tu não és aquela menina da televisão que faz assim com as mãos». Há muito mais procura, o que é bom, é muito bom, devia haver muito mais mãos a falar!

Devia haver mais programas traduzidos para língua gestual na televisão portuguesa?
Sem dúvida nenhuma. Imagina o que és surdo e estás durante o dia a trabalhar. Tens o canal dois a traduzir política ou notícias ao inicio da tarde. Ou seja está tudo a trabalhar, tu não tens nada... Se queres realmente saber o que se está a passar tens de ligar a televisão durante a tarde e aí a maior parte das pessoas está a trabalhar. Para as crianças em não sei quantos anos de televisão o «Batatoon» é o primeiro programa a ser traduzido.

Ainda falta fazer muita coisa...
Falta muita informação. Não há programas a serem traduzidos. Quando caiu a ponte de Entre-os-Rios a Associação estava cheia de surdos mas não estava lá nenhum ouvinte. De repente olham para a televisão e vêem a ponte a cair, aquele alarido... O que é que se passa? Ou quando as torres foram abatidas no 11 de Setembro... Eu tenho tentado mexer os cordelinhos mas é muito difícil. Tentámos fazer um projecto na TVI para traduzir no horário nobre nem que fosse o resumo da semana, 5 ou 10 minutos, mas já se passou um ano e não deu em nada. É mesmo um bocado de discriminação. Se os directores das televisões tivessem familiares surdos ou sentissem isso na pele provavelmente isto já não seria assim. Mas eu tenho esperança de que ainda se consiga alguma coisa.

Os surdos ainda têm de enfrentar muitas dificuldades na sociedade?
Têm porque há muita discriminação e isso vê-se em todo o lado. As pessoas ainda não estão sensibilizadas. Falta ainda muito, ainda há muito para fazer. Eu já fiz n serviços. Acompanho surdos ao banco, ao médico, a diversas situações. Imagina que queres comprar um carro precisas de um intérprete; se te queres casar precisas de um intérprete. Às vezes os intérpretes são um mal necessário. Agora já é mais fácil com os telemoveis porque há as mensagens mas é um bocado complicado. Mas acho que as pessoas se vão sensibilizar ao longo do tempo.

Na Associação são procurados para todo o tipo de trabalhos?
Exactamente. Já fizemos n coisas. Todos os dias tenho trabalhos diferentes. Todo o tipo de situação que possas imaginar. Ha situações em que é complicado, se precisas de um intérprete e se o intérprete não pode, o que acontece muitas vezes porque somos poucos e há muitos surdos, o surdo fica um bocado sujeito à disponibilidade dos intérpretes.

E como é que é a vida da comunidade surda?
Eles fazem uma vida perfeitamente normal. Os surdos entre eles tem uma vida social muito agitada, festas, encontros... É muito bom porque são muito amigos, é uma comunidade muito unida. As pessoas às vezes é que pensam «coitados, não ouvem». Realmente precisam de um intérprete para algumas coisas mas fazem a vida deles normalmente. O problema muitas vezes acaba por não estar neles mas sim nas outras pessoas. Eles esforçam-se imenso e explicam-se, e se tu tentares perceber consegues. Porque há pessoas em que se percebe perfeitamente o que eles dizem. Eles não são mudos, não têm nenhum problema nas cordas vocais. Eles não falam com surdos porque não ouvem a voz.


trabalho universitário